Papo com especialista

Papo com Especialista – É possível superar a ansiedade?

A ansiedade é como um dente-de-leão: por fora, parece forte. Porém, basta um sopro para que toda sua firmeza desapareça no espaço. Mas, é possível superar a ansiedade e viver com mais calma e tranquilidade?

(Créditos da imagem: Canto da Isa)

Eu era uma pessoa “comum”. Daquelas que não se apavorava com nada. Até que um dia…

Eu acordei com o coração acelerado, mãos suando, pés gelados e uma tremedeira que nenhum cobertor dava jeito. Naquele momento, eu jurava que ia morrer. Foi desesperador. O que estava acontecendo comigo? Eu enlouqueci? Estou morrendo? Estou doente? Não. O que eu estava tendo era uma crise de ansiedade.

Aos 25 anos eu fui diagnosticada com o “mal do século”: Transtorno da Ansiedade Generalizada (a famosa TAG). Justo eu, que sempre fui tão calma. Por meses a fio (e por alguns anos, para ser sincera) eu escondi esse meu “problema” das pessoas. Só alguns familiares e pouquíssimos amigos sabiam o que eu estava enfrentando.

Minha ansiedade não é de um nível tão avançado, mas é forte o suficiente para saber o que muitas pessoas sentem e sofrem (a maioria em silêncio, infelizmente). Hoje eu sei o que é se sentir só mesmo tendo dezenas de pessoas ao seu lado. Isso porque a ansiedade anda de mãos dadas com a solidão, com a angústia e com o medo. E eu senti (e às vezes sinto) tudo isso: muita solidão, uma angústia sem fim e um medo aterrorizador.

Então não é possível superar a ansiedade?

Felizmente, é!!! E existem muitos caminhos para diminuir ou até mesmo conviver com a ansiedade, sem que ela tome conta da sua vida e do seu cérebro. Primeiro, tenha em mente que VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO! De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de pessoas com ansiedade aumentou 18,4% nos últimos 10 anos, o que corresponde a mais de 322 milhões de indivíduos em todo o mundo, ou 4,4% da população do Planeta Terra. No Brasil, 9,3% das pessoas – a maior taxa da América Latina e uma das maiores do mundo – sofrem com o problema. As mulheres são as mais afetadas pela ansiedade, que pode compor quadros como fobias, transtornos obsessivo-compulsivo (TOC), estresse pós-traumático e pânico.

Enquanto os ansiosos se preocupam com o futuro – na maioria das vezes acreditam que algo ruim está prestes a acontecer ou que vão contrair alguma doença -, as pessoas que sofrem de problemas semelhantes, como depressão e estresse sentem como se estivessem presas ao passado, no primeiro caso, ou que o presente está sendo um peso, no segundo caso. Embora sejam doenças que se assemelham em alguns aspectos, elas têm sintomas e tratamentos diferenciados. Neste artigo iremos tratar sobre os aspectos da ansiedade, mais precisamento do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).

Para falar um pouco sobre a TAG, convidamos a psicóloga Monique de Almeida Goering, de Niterói/RJ , para responder algumas perguntas sobre este assunto.

Canto da Isa: Por quê uma pessoa que nunca se sentiu ansiosa pode, um dia, ser diagnosticada com TAG?
Monique: A ansiedade está presente em todas as pessoas – ela faz parte do nosso mecanismo de defesa. O que faz dela um transtorno é quando sua frequência aumenta de forma considerável, afetando a rotina do indivíduo e gerando à ele um quadro de sofrimento e preocupação constantes. Alguns fatores externos e até mesmo internos podem levar um indivíduo a desenvolver o transtorno, como alguns traumas, por exemplo.

Canto da Isa: Qualquer pessoa pode desenvolver TAG?
Monique: De uma maneira geral, sim, qualquer pessoa pode desenvolver TAG. Como falamos acima, a ansiedade faz parte do mecanismo de defesa do ser humano. O que pode originar um transtorno de ansiedade é a história de vida do sujeito, suas crenças, assim como o contexto em que ele vive.

Canto da Isa: A TAG é genética? Filhos de pais diagnosticados com TAG têm mais riscos de terem o problema?
Monique: Não, a TAG não é genética, porém o meio influencia. Se observarmos uma família de 6 pessoas, por exemplo, na qual o pai tem alguma patologia psicológica como uma depressão, e a mãe sofre de TOC, os filhos poderão acabar desenvolvendo algum tipo de transtorno.

Canto da Isa: Quais os principais sintomas da TAG?
Monique: A TAG só pode ser diagnosticada como tal se os sintomas persistirem por mais de 6 meses. Os principais são: Incapacidade de relaxar; Alterações gastrointestinais; Sudorese excessiva, principalmente em mãos e pés; Medo de enlouquecer; Medo de perder o controle; Dores de cabeça; Pensamentos intrusos e obsessivos; Medo de morrer; Excesso de controle. Esses são os principais, porém existem mais de 100 sintomas descritos na literatura.

Canto da Isa: Quais são os melhores tratamentos para TAG?
Monique: Psicoterapia é muito útil, assim como o uso de medicamentos apropriados pode ajudar o paciente na maioria dos casos. O medicamento é útil pois ajuda o indivíduo a controlar os sintomas e trazer a sensação de “paz” de volta. Já a psicoterapia focará nas questões internas do paciente, ensinando a ele a controlar o que antes não era possível controlar.

Canto da Isa: Existe cura para a TAG?
Monique: Infelizmente, não existe cura para a maioria das doenças psicológicas. O que existe é o controle da doença, através dos tratamentos acima indicados. O indivíduo pode ficar anos sem ter uma crise de ansiedade e fazer suas atividades diárias normalmente, porém a sua estrutura psicológica é do tipo ansioso. Por isso, é importante monitorar.

Canto da Isa: Por quê a ansiedade ainda é considerada um tabu na nossa sociedade?
Monique: Infelizmente vivemos em uma sociedade que ainda enxerga qualquer sofrimento psicológico como “frescura”. Precisamos falar mais sobre esses temas, mostrar para as pessoas que muitos indivíduos sofrem calados por não serem compreendidos e, principalmente, esclarecer que muita gente sofre de alguma alteração psíquica, mas não consegue enxergar, por preconceito ou medo.

Canto da Isa: Que conselhos, como psicóloga, você daria para quem sofre de TAG?
Monique: Procure se autoconhecer, faça terapia, se for necessário faça uso de medicamentos, faça meditação, yoga e principalmente se controle para não querer controlar o que não é passível de controle: sua própria vida!

Quer acompanhar a Monique? Siga ela no Instagram! https://www.instagram.com/goeringmonique/?hl=pt-br

O que deu certo para mim?

Eu sempre digo que cada pessoa é única. Por isso, se você sofre com a ansiedade generalizada é importante que você saiba o que funciona para você. Porém, acho interessante compartilhar o que me fez superar a ansiedade. Como disse a Monique, meu cérebro continua do tipo ansioso, mas hoje eu convivo com a ansiedade e levo uma vida melhor (até melhor do que antes, se pensar bem).

A primeira coisa que eu fiz foi procurar uma psicóloga em quem eu confio e com quem eu pude contar sobre toda a minha vida e desabafar sobre todos os meus problemas. É importante que você tenha um bom relacionamento com o seu terapeuta, que consiga se abrir com ele ou com ela e que acredite nesse tratamento. Feito isso, eu procurei uma psiquiatra que pôde me auxiliar com um medicamento e que me passou toda a segurança do mundo quanto ao remédio e tirou todas as minhas dúvidas. Cada consulta demora em torno de 1 hora e eu saio de lá muito confiante e animada.

Eu também comecei uma série de exercícios físicos que me permitem liberar as substâncias do bem estar. Já fiz yoga e hidroginástica, que foram maravilhosos. Hoje, eu faço Pilates e musculação e saio dos exercícios totalmente renovada. Outra coisa que me ajuda muito é a meditação. Ter um tempo só para mim, para o meu corpo e para não pensar em nada faz toda a diferença no meu dia-a-dia. Como a minha ansiedade se orientava para o tipo hipocondria (eu achava que iria ter uma doença grave a todo momento), mudar meu estilo de vida e manter uma alimentação saudável foi extremamente importante para mim.

E, por fim, quando eu me senti confortável para falar desse assunto com outras pessoas, eu descobri que muitos dos meus conhecidos passavam por situações bastante parecidas com a minha. Ouvir os amigos e familiares desabafar e saber que eu não estava sozinha nesse barco foi uma das coisas que mais me ajudou. Ler sobre o assunto, procurar me informar sobre ansiedade e saber que cada crise PASSA também me dá cada vez mais força para deixar a ansiedade em segundo plano e curtir a vida do jeito que eu mereço.

Caso você esteja passando por este problema e precisa desabafar, será um prazer! E lembre-se: se eu consegui, você também consegue!

Até amanha!

Fontes utilizadas

GRACIOLI, J. Brasil vive surtos de depressão e ansiedade. Jornal da USP, 2017. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/brasil-vive-surto-de-depressao-e-ansiedade/

OPAS/OMS Brasil. Folha informativa: depressão. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5635:folha-informativa-depressao&Itemid=1095