Bem estar

Saúde emocional, o que é isso?

A maioria de nós fazemos um check up anualmente. São analisados nosso colesterol, triglicérides, creatinina, glicemia, TGA, TGP, urina, vitaminas, hemograma, etc. Estamos sempre observando como anda a nossa saúde física: nossos órgãos, nossos músculos, nossos corpos. Mas e a nossa cabeça? E os nossos pensamentos? E a nossa saúde emocional?

Na imagem vemos o perfil de uma mulher. Ao fundo, uma paisagem natural com vegetação.
(Créditos da imagem: Unsplash)

Uma coisa que eu aprendi nos meus 30 anos de vida (e à duras penas, devo observar) é que não adianta absolutamente nada ter uma saúde física perfeita se a nossa cabeça não estiver saudável também. Aliás, muito provavelmente quando não cuidados da nossa saúde emocional, a nossa saúde física também vai mal.

Muitas pessoas ainda tem dificuldades para falar sobre sentimentos, para expor seus medos e preocupações e para pedir ajuda. Muitas pessoas ainda acham que nossos pensamentos e nossas angústias são algo meramente psicológico, que não merecem atenção ou que podem ser deixados no segundo plano. Quantas vezes, na nossa infância ou com os nossos filhos, a gente diz: “Não precisa chorar”, “Ah, isso não é nada!”, “Que medo mais bobo!”, “Ah você não sabe o que é sofrimento de verdade”, “Pare com isso, você tem que ser forte”, “Mas você está chorando ‘só’ por causa disso?”. Muitas, muitas e muitas vezes!

A nossa cultura nos impõe que chorar é sinônimo de fraqueza (quando não traz embutida a ideia machista de que homem não chora), que sentir medo é apenas para os fracassados, que desabafar é uma perda de tempo. Aprendemos que temos que ser fortes o tempo todo. Crescemos e perdemos o dom de ouvir os outros. Não temos tempo, não temos paciência, não podemos parar o que estamos fazendo (muitas vezes, nada) para ouvir o outro. E vamos passando isso de geração para geração, engessando na nossa cultura e no nosso cérebro que sentimentos são banais e secundários.

Mas não são.

Se você se choca ao ver acontecimentos bárbaros ou se você fica triste ao presenciar tantos ataques de violência no Brasil e no mundo, você verá que muito da violência atual poderia ser evitada se pudéssemos levar mais a sério a saúde emocional das pessoas. É como se fosse uma bola de neve: sentimentos de tristeza e rejeição que levam ao abuso de álcool e drogas, que leva à pensamentos violentos, que ativam áreas cerebrais relacionadas a abusos e violência, que levam às armas, que levam às mortes, que levam ao suicídio. Muitos casos seguem exatamente essa lógica.

Cuidar da saúde emocional, portanto, é muito mais do que se sentir feliz e em paz. Isso porque ninguém se sente feliz e em paz o tempo todo e todos os dias. Vivemos em uma sociedade em que a vida perfeitamente editada é postada diariamente nas redes sociais. Viagens, comidas caras, roupas luxuosas, eventos glamourosos, corpos perfeitos, casas milimetricamente arrumadas e bonitas, carros caríssimos, joias, e por ai vai. Vemos fotos de casais sorridentes, de crianças sendo embaladas no colo de mães penteadas e arrumadas, de famílias felizes, de amigos brindando. É como se a vida dos outros fosse sempre perfeita e só nós tenhamos problemas. Esse mundo cor de rosa é ilusório. Todos nós possuímos um turbilhão de emoções que invadem nosso dia a dia frequentemente: sentimos raiva, sentimos tristeza, sentimos decepção, sentimos amor, sentimos gratidão, sentimos inveja, sentimos alegria, sentimos solidão, sentimos vergonha, sentimos compaixão, sentimos medo e sentimos culpa. Afinal, nós somos humanos!

Cuidar da saúde emocional também é saber que todos esses sentimentos fazem parte da nossa natureza imperfeita. É aceitar que nem todos os dias são como planejamos. É buscar se melhorar a cada dia, mas respeitando as nossas limitações. Cuidar da saúde emocional é ensinar aos nossos filhos, sobrinhos, netos e quem amamos que as emoções são válidas e que existem formas de senti-las sem agredir a nós mesmos e aos outros. É ensinar aos pequenos que raiva faz parte da vida, mas não é batendo no amiguinho que vamos nos sentir melhor. É ouvir com atenção e carinho um amigo que precisa desabafar. É desacelerar o ritmo e curtir um tempo com a nossa família, sem celulares apitando, sem tablets, sem televisão.

É observar se uma criança tem apresentado um comportamento diferente. É participar ativamente da vida escolar dos seus filhos. É tirar um tempo para você se cuidar. É fazer terapia, se for preciso. É fazer meditação, se te fizer bem. Cuidar da saúde emocional é também estudar sobre emoções. É respeitar o luto. É respeitar o tempo de cada um e de nós mesmos. É prestar mais atenção nas pessoas ao nosso redor e naquela pessoa que vemos no espelho.

“Neurocientificamente” falando é dar ao nosso cérebro a oportunidade de se reestruturar e se reorganizar de vez em quando. Negar as emoções é negar nossos mecanismos básicos de defesa e reação; é esconder da consciência ideias, sentimentos e lembranças. Por exemplo, um filho que perde a mãe quando pequeno, se não tem seus sentimentos de luto e tristeza validados, pode “arquivar” esses sentimentos na memória procedural (aquela que não temos acesso conscientemente). Quando adulto, ele pode ser uma pessoa “fria”, não porque não se importa com os outros mas porque não consegue expressar seus sentimentos conscientemente. Percebe a importância da educação emocional para as crianças?

Cuidar da saúde física é tão importante quanto cuidar da nossa saúde mental e emocional. Um não vive sem o outro. Uma saúde emocional em péssimo estado leva a uma vida física em péssimo estado. Você ainda acha que eles estão separados? Observe quando você fica irritado com algo: seu coração dispara, suas mãos se fecham, sua mandíbula se contrai. Raiva (pensamentos/emoção) + neurônios disparando + Tensão muscular (físico), tudo isso ocorrendo automaticamente em segundos. Agora imagine uma pessoa que vive irritada, nervosa, ansiosa, estressada e triste. Que tipos de neurônios são disparados no cérebro dessa pessoa? Que mapa cerebral estará se formando? E que efeitos essas conexões fazem em seu corpo?

Comumente vemos pessoas estressadas com dores nos ombros. Ou pessoas preocupadas e ansiosas com dores estomacais. Vemos pessoas que se sentem acuadas tendo problemas intestinais, outras sobrecarregadas com cefaleias. Corpo e mente ligados. Não tem como dissociá-los. Mas, infelizmente, muitos acreditam que um é muito mais importante que o outro. Nesse caso, seria como querer fazer um carro andar com o motor quebrado e sem combustível. O carro pode ser o mais lindo e moderno, mas sem o motor funcionando e sem gasolina, ele perde a sua função.

Por isso, se cuide INTEIRAMENTE! E, claro, ensine isso aos seus filhos todos os dias!