Desenvolvimento infantil

Organização de brinquedos: muito mais importante do que você imagina

Legos jogados por todo lado, massinha de modelar no sofá da sala, bonecas despenteadas e peladas no corredor, carrinhos no banheiro, comidinhas no quintal. Você já deve ter visto essa cena né? Se não espalhados pela casa, alguma vez você já deve ter se deparado com brinquedos espalhados e com o caos no quarto dos seus filhos. Mas dá (e precisa) ser diferente. Vem comigo!

Na foto vemos um ursinho de pelúcia infantil.
(Créditos da imagem: Barrett Ward)

Desde que eu me descobri grávida da Sofia eu venho estudando à fundo sobre desenvolvimento infantil (principalmente no que diz respeito às funcionalidades cerebrais), educação orientada, disciplina positiva, Maria Montessori, filosofia Waldorf, e por aí vai. A pesquisa de um modo geral sempre fez parte da minha vida; me considero uma pessoa extremamente curiosa, ávida por conhecer, descobrir e aprender. Isso se tornou muito mais latente em mim depois das minhas experiências profissionais como pesquisadora e cientista. E, claro, não seria diferente quando eu tivesse um filho.

De todas as minhas leituras relacionadas à bebês e crianças pequenas, algo era muito repetido e disseminado: a organização. Não apenas a organização física dos brinquedos, como iremos abordar neste artigo, mas toda e qualquer tipo de organização: desde a organização da casa para receber o recém-nascido até a organização da família à que ele ou ela venha a pertencer, com as rotinas bem definidas e consistentes.

Embora eu não siga à risca um método específico, eu me inspiro em muitos, pesando o que mais funciona para a minha família. Em relação à organização do espaço, especificamente, eu gosto muito do método Montessori (e se você tiver mais interesse nesse assunto, por favor, me dê um alô). Gabriel Salomão comanda brilhantemente um site chamado Lar Montessori, e em um de seus posts ele fala sobre a organização do ambiente da criança, baseado nos ensinamentos da Maria Montessori (médica e educadora que criou um método de ensino totalmente voltado para o respeito à individualidade de cada criança). Mas antes de falarmos sobre a organização de brinquedos em si, vamos falar do por que isso é tão importante para o cérebro e, claro, para o crescimento do seu filho.

Por que a organização é tão importante para crianças pequenas?

A partir do momento em que uma criança está apta para se locomover pelo ambiente em que ela vive (seja engatinhando ou andando), ela precisa explorar o ambiente. Tocar, ver, descobrir, interagir, pegar, arrastar, levar à boca, sentir, etc. são ações que acionam o cérebro infantil e o ajudam, a partir de sinapses e ligações neuronais, a aprender e a compreender o que é o mundo. Explorar o ambiente é uma condição essencial da vida. Por isso que preparar a casa para a chegada de um bebê, deixando-a segura e explorável, é tão necessário.

Porém, como uma criança poderá explorar objetos (e se concentrar neles) se tudo se encontra bagunçado? Ou ainda, como que uma criança poderá explorar um brinquedo se tem ao seu lado outro, outro e mais outro, roubando-lhe o foco de atenção a todo momento? Não é incomum vermos crianças pulando de brinquedo em brinquedo e, apesar da quantidade e variedade disponível, aparentar não se satisfazer com nenhum. Assim como não é incomum depois de ganhar vários brinquedos novos, a criança abandoná-los em um canto e brincar justamente com aquele velho brinquedo de sempre. Nós, como pais, não sabemos onde enfiar a cara perante àquele parente que escolheu tão cuidadosamente o presente dado e vê o seu objeto ali jogado em um canto qualquer.

Nem sempre isso significa que a criança não gostou dos brinquedos novos. Tampouco que ela não se contenta com os brinquedos que ela já possui. É que seu cérebro em desenvolvimento muitas vezes não consegue dar conta de tanta informação e estímulo. Pensemos juntos! Imagine que você ama sapatos e, para sua sorte, você ganhe de uma vez dezenas deles. Como você reage? Você pode olhar e provar cada um deles, mas você concorda que sua atenção em cada um estará distribuída proporcionalmente ao número de pares que você ganhou? Ao passo que quando você ganha apenas um você olha com atenção cada detalhe – o salto, a sola, o couro, o detalhe no bico. A atenção não é a mesma, percebe? Nem teria como ser.

O mesmo ocorre com todos os brinquedos disponíveis de uma vez. A criança não sabe com o que brincar primeiro, então ela joga os blocos no chão, começa a montar e… vê aquela boneca tão bonita e corre lá para brincar com ela, mas… jogar bola parece ser mais interessante e então depois de uns chutes, por que não brincar de massinha? E aí o caos está formado: ela se sente frustrada, você se sente frustrado, a casa tá uma bagunça só, o cachorro resolveu entrar no meio e destruir uns brinquedos, e aí vem o choro sentido pelo bloco mordido, você bravo mandando a criança guardar tudo (e agora, senão vai ficar de castigo!), o cachorro com o rabinho entre as pernas sem entender o motivo de você estar bravo com ele também, e o resto você consegue imaginar.

Leitor querido, sinto-lhe informar, mas a culpa não foi da criança, muito menos do cachorro. A culpa foi sua, dotado de um córtex-pré frontal totalmente desenvolvido, e que ainda assim possibilitou a formação desse caos todo. Daí o resultado tão desastroso: você indo para a cama cansado psicologicamente, com a lombar doendo de catar tanto brinquedo, o cachorro na caminha (por sorte, ele já esqueceu a bronca) e seu filho desanimado e querendo mais brinquedos. E o ciclo recomeçará no outro dia, com certeza.

Mas agora que você já tem uma noção do por que isso acontece (e descobriu que não é seu filho que é desorganizado, mas sim o ambiente que não lhe é favorável), vamos ver como fazer essa organização e ter ideias de como fazer o tão eficaz “rodízio de brinquedos”.

Rodízio de brinquedos na prática

Minha primeira dica é que você tenha onde guardar os brinquedos do seu filho, de modo organizado. Se a quantidade de brinquedos for tanta que você não tem onde armazená-los na sua casa, talvez seja preciso ajustar algumas coisas. Será que todos os brinquedos que estão disponíveis são para a faixa de idade do seu filho, ou tem coisa que ele não usa mais ou ainda vai usar no futuro? Se esse for o caso, separe o que ele já não usa e guarde em outro lugar, venda ou doe. Se esse excesso for causado por compras demais, talvez seja necessário rever o consumismo na sua família.

Eu costumo organizar os brinquedos da Sofia dentro do guarda roupa do quarto dela (eu não tenho muito espaço em casa, mas se sua casa for maior, você pode ter um armário – ou parte dele – só para isso. Eu os separo em grandes caixas organizadoras transparentes e com tampa e etiqueto para saber o que tem dentro. Isso é muito útil para mim, porque toda quarta-feira eu faço o rodízio e já sei o que tem dentro de cada caixa.

Na foto vemos uma imagem de uym guarda roupa infantil com as roupas e os brinquedos organizados.

No canto esquerdo separo os livros que são para brincar: aqueles com colantes e/ou atividades. Na caixa de cima estão todos os Legos duplos dela. Ao lado, na cesta vermelha, estão as frutinhas, panelinhas e talherzinhos: tudo que ela usa para brincar de cozinha. Nas caixas embaixo estão quebra cabeças, brinquedos de madeira, etc.

Na imagem, vemos a foto de brinquedos organizados em cestos e baús.

Já os ursinhos de pelúcia, dedoches, fantoches e bonecas ficam no baú que, fechado, serve de banco para lermos e brincarmos. À esquerda, estão alguns dos bichinhos e bonecas que ficam disponíveis para ela. Toda semana eu troco por outros de dentro do baú.

Na foto vemos livros infantis organizados em um armário e em uma estante.

Por fim, os livros. Esses são os únicos objetos que eu deixo ela ter total acesso sempre que ela quer, porque para a minha família livros são deixados à vista sempre. Na estante ao lado, ao alcance dela, estão os livros que eu escolho para terem destaque na semana. E no meu quarto, no meu criado mudo, tem um livro que eu escolho para ler para ela todas as noites.

Com os brinquedos organizados – o que facilita muito a minha vida e do meu marido – toda semana nós fazemos as escolhas dos brinquedos que ficarão disponíveis para ela ao longo de uma semana. Aqui nós mudamos toda quarta-feira, mas isso não é fixo, pois se eu percebo que ela não está animada com os os escolhidos, eu troco. Geralmente, funciona bem.

Normalmente, ficam disponíveis na sala e no quarto uma média de 5 a 7 atividades. Eu sempre tento escolher brinquedos com temáticas e objetivos diferentes. Como apreciamos bastante brinquedos de madeira, do tipo educacional, eu sempre deixo um à disposição. Seguido por um brinquedo de montar (que ela adora), um que envolva imaginação ou faz-de-conta, um de encaixe e um para desenvolvimento da coordenação motora fina. Para você ter uma ideia, nesta semana, enquanto escrevo este artigo, os brinquedos estão assim disponíveis:

Na foto, vemos um criado mudo com dois nichos. Em cada um dos nichos há um brinquedo e acima do criado mudo dois bichinhos de pelúcia infantis.

No quarto – Deixo disponível no criado/prateleira uma bandeja com blocos para empilhar ou fazer torre, a xícara com a chaleira (para fazer “ti”, como ela diz), e blocos de montar livre. Acima, uma almofada (apenas decoração) e a Peppa Pig.

Na foto, vemos um brinquedo infantil do tipo de vestir.

Ainda no quarto, na mesinha de atividades – Um brinquedo do tipo vestir com várias peças em madeira e ímã para ela deixar a princesa Sofia fashion (ou não) hehe

Na foto, vemos uma mesinha infantil com cadeira e um livro e um quebra cabeças.

E por fim, na sala – Temos outra mesinha de atividades na sala. Achei importante colocar outra aqui porque é onde mais ficamos e brincamos no dia a dia. Aqui temos disponível um livro de colantes sobre o primeiro corte de cabelo (achei conveniente porque ela irá cortar o cabelo pela primeira vez no sábado :)) e um quebra cabeça de madeira.

Algumas famílias preferem fazer rodízios quinzenais ou diários, mas isso é muito particular de cada dinâmica familiar. O que funciona bem, no entanto, é:

  • Tenha brinquedos e/ou atividades em lugares da casa onde a criança não fica sozinha. Não adianta deixar objetos disponíveis no quarto se a família fica na sala de estar;
  • Se você tem uma estante de livros na sala, inclua alguns exemplares infantis (uns 3 bastam). Isso fará com que ela sinta que pertence ao ambiente e tira o foco dela dos livros que não a pertencem;
  • Tente escolher brinquedos com funcionalidades e objetivos diferentes. Deixar disponível blocos de montar de EVA, lego e blocos de madeira fica muito monótono;
  • Utilize uma bandeja para organizar os brinquedos menores, principalmente os que contém peças soltas. Isso ajuda muito a não perder pecinhas por aí e mostra para a criança que aqueles brinquedos se relacionam entre si;
  • Prefira móveis, bandejas e acessórios mais neutros. Isso ajuda a criança a focar no brinquedo em si e não na mesa cheia de bichinhos;
  • Seja flexível com o rodízio. Se a sua criança pede para brincar de carrinho e não tem nenhum disponível, guarde um que ela não está interessada e ofereça os carrinhos que ela deseja;
  • Se seu filho está gamado naquele jogo de tabuleiro, deixe ele permanecer mais algumas semanas com ele. Só mude quando ele realmente não aparentar mais interesse (Sofia ficou com massinha de modelar disponível por uns dois meses);
  • Ofereça os brinquedos novos um a cada semana (ou espace mais, se preferir). Isso ajuda o cérebro a se focar e a experimentar as várias funcionalidades de cada vez (lembra dos sapatos, né?);
  • Sempre, sempre e sempre estimule seu filho a guardar os brinquedos no mesmo lugar e em ordem. E lembre-se: de nada adianta um espaço organizado para as crianças se o seu próprio é caótico;
  • Lembre-se que em casos de brinquedos com muitas peças, como Lego por exemplo, seu filho não conseguirá guardar tudo sozinho. Esteja disposto a ajudá-lo;
  • Quando sua casa estiver uma bagunça, lembre-se que o cérebro desenvolvido é o seu, então cabe à você resolver o problema e fazer alguns ajustes;
  • E nunca se esqueça que nada nesse mundo, brinquedo nenhum, substitui a presença e o carinho. Seu filho não precisa ter tantos brinquedos, mas da sua atenção e do seu tempo de qualidade ele irá precisar sempre!