Desenvolvimento infantil

6 passos para desenvolver Inteligência Emocional no seu filho

Validar sentimentos, acolher, respeitar e direcionar são passos essenciais na educação emocional que damos aos nossos filhos. Por mais difícil que alguns dias possam parecer, é nossa função ensinarmos as nossas crianças sobre emoções e como expressá-las de maneira correta.

Expressar, interpretar e compreender emoções começa na infância

Desde que somos um feto, já podemos sentir tudo aquilo que é sentido pela nossa mãe por meio de movimentos e descargas hormonais que são passados pelo útero materno [1]. Depois do nascimento, vamos, aos poucos, demonstrando nossos próprios sentimentos e emoções – o primeiro o choro, ao estarmos com fome, sono, tédio ou com a fralda suja; depois nossos sorrisos; as caretas; as gargalhadas, e por aí vai.

Conforme vão crescendo, as crianças vão se deparando com pequenas frustrações e é nessa hora que nós temos a grande oportunidade de começar a ensinar sobre emoções e sentimentos.

Culturalmente aprendemos que chorar não é legal e nem permitido. Então, quando vemos uma uma criança com lágrimas nos olhos (e garganta à todo vapor), automaticamente falamos “não precisa chorar”.

Se alguém nos falasse isso quando somos despedidos do nosso emprego ou quando levamos um fora do namorado, com certeza olharíamos para o nosso interlocutor com olhos furiosos e falaríamos: POSSO CHORAR SIM! TENHO MOTIVOS PARA ISSO! ME DEIXE SENTIR MINHA TRISTEZA EM PAZ.

E antes que você pense que não dá para comparar o problema real de um adulto com a frustração de um brinquedo não comprado, eu lhe digo: não é! Naquele momento, com o cérebro ainda em desenvolvimento e não sabendo lidar com frustrações, a criança se sente verdadeiramente chateada e, aquele brinquedo que em até 15 minutos antes ela nem sabia que existia, se torna um baita de um problema.

Portanto, ela precisa extravasar isso de alguma forma e, não sabendo reagir de modo mais eficaz, ela apela para a forma mais antiga que conhecemos: o choro.

Na foto vemos uma menina pequena chorando.

Se não ensinada a reagir com emoções mais sofisticadas e apropriadas, a criança apelará para os únicos recursos que ela conhece: lágrimas, gritos, murros no chão e toda aquela cena que antes de ter filhos você jurou de pés juntos que sua criança nunca iria protagonizar.

É claro que, mesmo com todos os cuidados e toda educação emocional que você poderá proporcionar-lhe, a criança ainda terá episódios de estresse, mas te garanto que serão BEM menos comuns.

6 passos para ensinar educação emocional para o seu filho

Mas vamos parar de blá blá blá e vamos direto ao ponto: como ensinar sentimentos e emoções para crianças pequenas?

Aqui nós vemos uma imagem com os seis passos para ensinar inteligência emocional para crianças

1- Não subestime os sentimentos dos seus filhos

Não importa o quão bobo o problema possa lhe parecer. Não importa se a criança está chorando porque quer ir para a escola de meia preta ao invés de meia branca, por exemplo. Não subestime seus sentimentos com frases, como: “Ah, você está chorando por causa de uma meia? Que bobagem!.

Eu entendo que as vezes a gente está com um problema bem complexo para resolver e também admito que eu também já soltei frases desse tipo com a minha filha. Como qualquer pessoa normal, eu também tenho dias difíceis, em que eu estou com 0 paciência para ficar “perdendo tempo” com a cor da meia. Tem dias em que eu estou com pressa, estou cansada, estou com fome ou estou de saco cheio (e na maioria das vezes estou com tudo isso junto). Quero só chegar em casa, tomar um banho e deitar por 5 minutos que seja (nos meus sonhos, no silêncio). Mas eu também entendo que aquilo é importante para ela, assim como um dia também foi importante para mim.

Então, nessas horas, agir com empatia ajuda um bocado.

Então, em algumas ocasiões eu respiro fundo e diminuo o ritmo. “Filha, eu entendo que você quer ver a formiguinha; é super legal observar como ela leva a folha para o formigueiro, né! Mas a mamãe está com pressa, então vamos ver só mais um pouquinho, e vamos ok?”. Se após um pouquinho, ela continuar insistindo, eu posso simplesmente pegá-la carinhosamente no colo e, em meio às lagrimas dela, dizer: “Eu sei que você queria ficar mais, mas nós precisamos ir. Podemos ver mais formiguinhas mais tarde“. Normalmente funciona. E funciona porque eu validei seus sentimentos (eu sei que você quer ver; eu sei que você gostaria de ficar), fui carinhosa e mostrei a possibilidade de, em outro momento, a gente continuar com a observação (e promessa feita TEM que ser promessa cumprida, portanto, não deixe a criança acreditar em algo que você não conseguirá cumprir).

2- Não relacione sentimentos com coisas negativas e/ou preconceituosas

Chorar é feio“, “Chorar é sinal de fraqueza”, “Homem não chora“, “Não sinta raiva, assim você é uma criança ruim“; “Você fica feia (o) quando grita“, “Você triste parece um menininho mimado“; “Eu não gosto quando você chora“, “Eu fico triste quando você sente raiva“, “Não vou falar com você até você se acalmar“, “Tenho vontade de sumir quando você grita“. Essas frases estão repletas de conotações negativas e preconceituosas.

Como uma criança poderá aprender que a raiva faz parte da nossa vida, mas que existem outras alternativas para lidar melhor com ela do que gritar ou bater no amigo, se ela acreditar que essa emoção só faz parte dos sentimentos de pessoas ruins e que, quando ela inevitavelmente a sentir, estará entristecendo seus pais?

Um menino chorando.

Como ensinar um menino que a tristeza faz tão parte do nosso cotidiano quanto a alegria, se impusermos à ele ideias machistas e ultrapassadas de que homem não chora e que chorar faz com que seus pais não gostem dele?

Como ajudar seu filho a encontrar alternativas mais eficazes que os gritos se não dermos a oportunidade à ele de aprender outras opções?

Como tornar adultos empáticos, sensatos e equilibrados se passamos uma infância inteira privando-lhes as emoções?

Uma das nossas funções como pais é ensinar as crianças como lidar com sentimentos. A primeira e principal coisa é validarmos seus sentimentos. Todos nós sentimos raiva, medo, tristeza, alegrias, etc. Essas emoções fazem parte da vida e nos ajudam a viver melhor. Afinal, como saberíamos que existe alegria se nunca tivéssemos sentido tristeza? Como saberíamos que respirar fundo e conversar é muito mais eficiente, se um dia não tivéssemos gritado e dado murros na mesa para então percebermos que isso não adiantava nada? Como saberíamos da nossa força interior se um dia não tivéssemos sentido medo, mas mesmo assim o enfrentado?

Além disso, reprimir os sentimentos na infância traz sérios problemas no futuro. Existe uma doença chamada alexitimia, distúrbio cognitivo e afetivo que consiste na dificuldade em diferenciar, reconhecer e manifestar sentimentos e exprimi-los em palavras e ações [2]. Imagine as consequências desse distúrbio na vida social e emocional de um adulto.

3- Não encare os maus comportamentos como algo pessoal

É muito frustrante quando seu filho mira as mãozinhas e te dá um tapa no rosto. Dói na alma, nos entristece e nos irrita, além de automaticamente vir na nossa cabeça “onde eu errei?” ou “porque ele está fazendo isso comigo?”.

Primeiro, existem diversos motivos para uma criança bater, morder ou fazer uma “birra” (detesto essa palavra). Pode ser para chamar a sua atenção, pode ser para demonstrar que algo não vai bem, pode ser para expressar um descontentamento, etc. Desejável? Nem um pouco! Adequado em termos de desenvolvimento cerebral? Absolutamente.

Criança com cara de brava.

Quer ver só? Você não esperaria que seu filho olhasse para você e com a voz firme, mas simpática lhe dissesse: “Papai, eu estou me sentindo cansado. Não quero continuar nesta loja, por mais que eu saiba que você precisa comprar um presente para a mamãe. Por favor, podemos ir embora e fazer isso amanhã?”. Seria estranhíssimo e engraçado, certo? E porque isso não soa natural? Porque nós sabemos que crianças pequenas não tem esse tipo de maturidade cerebral; elas simplesmente não sabem lidar com as suas emoções. Então, ela prepara a mão e PAH, te dá um tapa do tipo “to de saco cheio de ficar aqui, quero ir embora”.

Antes que você fique chateado e leve isso para o lado pessoal, lembre-se desta frase (vou até deixar em destaque): Quando os filhos sentem que estão ligados aos pais de maneira segura, eles se sentem confiantes o bastante para testar esse relacionamento. Em outras palavras: o mal comportamento dele é, frequentemente, um sinal da confiança que ele sente por você [3].

É por isso que normalmente seus filhos podem ser uns “santinhos” com a vovó ou na escola e comportar-se de outro modo na sua presença. Não é pessoal; é que em você ele confia tanto que ele sabe que pode testar todas as emoções que mesmo assim continuará sendo amado. A gente faz um pouco disso: somos muito mais diretos (e, num dia ruim, grosseiros) com quem mora conosco do que com um desconhecido na rua. Agora que você pode respirar aliviado ao saber que seu filho não dá uns tapinhas porque sente raiva de você, na próxima vez que acontecer, você terá a mente livre para pensar em como educar esse comportamento ruim.

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4- Seja o exemplo

Essa regra serve para tudo quando falamos sobre educação infantil, inclusive quando falamos sobre sentimentos.

Teve uma vez que eu estava me sentindo muito triste com um acontecimento e comecei a chorar. Sofia entrou no quarto e ficou pensativa me olhando. De repente ela se sentou ao meu lado na cama e me perguntou “que, mamãe?”. Eu poderia ter inventado qualquer coisa, mas achei que seria uma oportunidade de explicar a ela um pouco sobre o que estava acontecendo. Eu apenas disse: “Mamãe está triste porque aconteceu uma coisa que me chateou. Então eu estou chorando.” Sabe o que ela fez em seguida? Ela me abraçou e me disse “sofia aqui“. Sim, ela me abraçou!

Sua filha é especial“. Não, ela não é especial. Ela apenas repetiu o que eu faço com ela quando ela chora. Normalmente eu sento ao lado dela e pergunto “o que foi, filha?” e depois eu a abraço e digo “a mamãe está aqui“. Se o choro foi causado por um mal comportamento, eu converso com ela depois de acalmá-la. “Você chorou porque a mamãe falou que não pode jogar a água do Bob na ração dele, né? Mas agora você sabe que isso não é legal e que se você faz isso, ele fica sem papá.” Pronto. Basta. Eu validei o sentimento, acalmei, abracei e direcionei.

Mas voltando à história do choro, eu tenho certeza que de um modo ou de outro ela entendeu, porque quando ela vê outras crianças chorando agora, ela diz “o nenê tá chateado, tá choiando mamãe”. Eu ensinei que a tristeza faz parte. Seja o exemplo, sempre!

5- Nunca humilhe seu filho

Parece forte essa frase né. E é! Eu já cansei de ver cenas como esta, em que mães e pais humilham publicamente os seus filhos e ensinam, da pior forma possível, sentimentos como vergonha e inferioridade.

Se você um dia já fez algo assim com o seu filho, por favor, não repita.

Você não precisa corrigir o seu filho na frente de todo mundo. Aliás, você não gostaria de ser corrigido pelo seu chefe na frente dos seus colegas de trabalho. Isso só lhe traria sentimentos de vergonha, raiva e baixa auto-estima. O mesmo se dá com os pequenos. Evite falar mal da sua criança na frente dela (aliás não fale mal dela em nenhuma situação). Já ouvi de muitas mães frases como “fulano está malcriado demais, fazendo birra toda hora, tenho vontade de sumir” ou então “olha filho, como essa menininha é comportada. Ela não é igual você, desastrado e bagunceiro“. O que você ganha em falar isso para uma criança de dois ou quatro anos? Além de deixá-lo para baixo (com razão), você só estará ensinando que é importantíssimo se comparar com os outros e que os outros são muito melhores que ele (e aquela menininha educada pode ter acabado de fazer uma bela meleca na mesa). Por isso, não humilhe seu filho, nunca!

[Você já conhece as 5 linguagens do amor das crianças? Confira aqui!]

6- Seja sincero com os seus sentimentos

Não estar bem algum dia é ok. Dar um chilique e gritar com sua criança mais cedo ou mais tarde vai acontecer, por mais que você seja calmo ou estude sobre sentimentos. Nós somos humanos, cheios de falhas. Não se culpe se um dia as coisas não saírem conforme você planejou, nem sempre sai e isso também é ok.

Aprendi com a maternidade que é importante ser sincera com os meus sentimentos e que isso tem um impacto profundo na educação da minha filha. Não adianta eu querer ser a mãe mais calma do mundo, se é da minha natureza ser agitada. Não adianta eu querer sempre estampar um sorriso no rosto se por dentro eu estou despedaçada. A criança percebe quando estamos forçando a barra. É nítido quando tentamos ser o que não somos. Então meu conselho é: seja verdadeiro com você mesmo e seja do jeitinho que você é, sem um personagem. É claro que estamos a busca por melhoramento sempre, mas se colocarmos uma máscara para os nossos filhos, em algum momento ela irá cair.

Aprendi ao longo desses 2 anos que terá dias em que eu estarei radiante e terá dias que eu não terei essa paciência toda. Descobri que não é porque a Sofia bate nas minhas coxas que ela não tem direito à um pedido de desculpas. Muitas vezes eu errei com ela e ok me desculpar. Até nos nossos erros nós educamos nossos filhos.

Descobri que acolher a criança na hora da birra faz com que ela seja mais curta. Descobri que respeitar a criança é tão importante quanto respeitar qualquer adulto, seja ele rico, pobre, jovem ou idoso. Descobri que eu não tenho o direito de subestimar os sentimentos de ninguém, muito menos da minha filha. E descobri que cabe à mim dar os direcionamentos que ela precisa para ter um emocional saudável.

Fontes Consultadas

[1] VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Etapas do desenvolvimento emocional. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2006.

[2] FERNANDES, N.; TOMÉ, R. Alexitimia. Revista Portuguesa de Psicossomática, v. 3, n. 2, 2001.

[3] SIEGEL, D. J.; BRYSON, T. P. Disciplina sem drama. São Paulo: nVersos, 2016.