Bem estar

O corpo é meu!

Se nós soubéssemos como nossos comentários podem ser desastrosos na vida de alguém, certamente falaríamos menos.

Na foto vemos uma mulher de costas com as mãos na cabeça aparentando tristeza.
Fonte: Unsplash

Minha filha fez dois anos e durante a sua festinha (caseira e feita por mim) eu notei um comportamento feminino que me fez ficar bastante chateada. Ao chegar com a bandeja de salgados típicos de uma festa infantil (coxinha, bolinha de queijo, croquetes, etc), muitas mulheres olhavam para mim sem graça e diziam “é, eu vou pegar mais um, porque eu estou gordinha mesmo né!”. Não foi uma e nem duas mulheres que tiveram esse comportamento. Foram umas 4 ou 5 ( o que é muito, considerando uma festa pequena e íntima).

Devo dizer que eram 4 ou 5 mulheres importantes para mim. 4 ou 5 mulheres lindas. 4 ou 5 mulheres que eu admiro. 4 ou 5 amigas que eu amo. Poxa, o que está acontecendo conosco?

A minha história e minha trajetória com peso e auto imagem

Quando eu era criança, com uns 8 ou 10 anos, eu era magra. Muito magra! Eu olho as minhas fotos de antigamente e vejo perninhas finas, ossos protuberantes, quadril e cintura pequenos. Eu nunca fui uma criança fofinha, com dobrinhas e com bochecha de comercial de fralda. Minha filha, por sinal, é assim também. Logo que eu menstruei, lá pelos 12 anos, eu tinha um ciclo super irregular. Depois de alguns exames, eu descobri que tinha a Síndrome dos Ovários Policísticos (o famoso SOP). Com uns 16 anos eu passei a ganhar peso assustadoramente, boa parte causado pelo descontrole hormonal. Com 17 anos eu tinha engordado 20kg e pesava 70kg. Isso me deixou com a autoestima no pé (no subsolo, para ser sincera). Eu não tinha roupas que me servissem, me achava feia e evitava piscina, mar e qualquer coisa que mostrasse um pouco do meu corpo. Podia estar um sol de rachar mamona, mas eu estava sempre de calça e, não poucas vezes, de moletom.

Eu já sofri MUITO com peso. Já fiz dietas malucas, já passei fome pra caramba, já fiquei com fraqueza, já tomei laxante para perder peso, já coloquei uma trufa de chocolate na boca e cuspi antes de engolir (que horror!). E embora eu nunca tenha passado por um distúrbio alimentar sério, eu já chorei muito, me descontrolei e me tranquei em casa por dias por causa da minha aparência. Já recusei inúmeros convites para ir para casas com piscina, para praia e parques aquáticos (e quem me conhece sabe da minha paixão por água). Já sofri alguns preconceitos também!

Certa vez ouvi de um médico (crueldade não tem limites para certas pessoas) que se eu não me cuidasse, meu marido arrumaria outra (claro, eu levantei da poltrona e fui embora do consultório sem responder). Também já me cogitaram fazer uma bariátrica e isso me feriu muito na época.

De tudo que eu já passei, senti e ouvi, é como se:

  • O amor dentro de um casamento se restringisse ao peso do parceiro e à aparência da parceira;
  • Para ser bonito é preciso ser magro;
  • Para não ser traída, é preciso ser magra;
  • Pessoas acima do peso não são bonitas;
  • Pessoas acima do peso não são amadas.

Quanto à bariátrica, eu nem vou comentar porque foi algo tão insensato (pois eu deveria pesar ao menos uns 30 ou 40kg a mais para isso ser uma opção), que prefiro esquecer.

Gente, esse assunto é GRAVE! Esse assunto tem que ser abordado, tem que ser discutido, tem que aparecer! Estamos tratando a imagem alheia de qualquer jeito, sem um mínimo de cuidado e sem um mínimo de respeito. Estamos invadindo de tal maneira a privacidade das pessoas que estamos nos tornando seres monstruosos.

Estamos educando nossos filhos para apontarem dedos. E estamos ensinando nossas meninas que para ser bonita, é importante se enquadrar no que a sociedade diz, não importa sua genética, sua raça ou sua cultura.

Perdemos a noção da diferença do que é cuidar da nossa saúde e ensinarmos nossos filhos a cuidarem das deles e do que é ser medíocre, cruel e preconceituoso. E isso tem trazido consequências terríveis para as nossas crianças e para os nossos jovens. Cada vez mais vemos jovens sofrendo de transtornos alimentares, incluindo a anorexia e a bulimia.

(Antes de continuar, eu gostaria de dizer que o foco aqui são nas pessoas que sofrem para perder peso e não nas pessoas que sofrem para ganhar peso (que também sofrem com a auto imagem e muitas vezes também enfrentam comentários maldosos e cruéis).

Vamos aos dados!

O tema já foi abordado em diversas revistas e jornais nacionais e nos trazem dados chocantes:

  • Veja de SP [1]: “77% das jovens paulistanas têm propensão a distúrbios alimentares”.
  • Jornal O Tempo [2]: “Taxa de compulsão alimentar no Brasil é o dobro da mundial”.
  • Jornal da UFJF [3]: “De 1 a 5% da população mundial sofre de distúrbios alimentares, como bulimia ou anorexia”.
  • Boletim do Hospital Sírio Libanês [4]: “Culto ao corpo faz crescer casos de transtorno alimentar entre homens”.
  • Jornal Hoje – G1 [5]: “Oito em cada dez adolescentes podem ter distúrbio alimentar”.
  • Revista News [6]: “Transtornos alimentares têm a maior taxa de mortalidade entre as doenças mentais”.
  • Jornal Estadão [7]: “Estimulada pelas redes, obsessão com magreza começa cada vez mais cedo”.
  • Correio Braziliense [8]: “A anorexia e a bulimia já atingem 1% a 5% das mulheres no mundo”.
  • Jornal Hoje em Dia – R7 [9]: “Anorexia causa, em média, uma morte por hora no mundo”.
  • Rádio EBC [10]: “Pacientes com anorexia têm taxa de sobrevida inferior aos de câncer de mama”.

E tudo isso para que?

Já vi mulheres se pesando diariamente, comendo uma folha de alface no almoço e uma no jantar. E isso pra que? A sensação de felicidade ao entrar em uma calça 34 ou 36 é tão grande assim que compensa ser infeliz durante todo o percurso para se chegar ao tão sonhado manequim?

Eu acho incrível mulheres que se aceitam do jeito que são: magras, gordas, altas, baixas, loiras, morenas. Acho o máximo mulheres cheinhas que usam shorts curtos e não estão nem aí para as suas celulites. Acho lindo mulheres magras que comem um chocolate quando querem. Uma coisa é querer emagrecer para ter saúde, outra muito diferente é emagrecer para se sentir aceita.

Na foto vemos uma imagem em preto e branco de uma mulher olhando para a câmera e chorando.

Se nós soubéssemos como nossos comentários podem ser desastrosos na vida de alguém, certamente falaríamos menos.

Hoje, aos 30 anos, eu consigo me aceitar melhor. Tenho minhas tempestades internas ainda, mas tenho um imenso orgulho do que meu corpo foi capaz de fazer. Ele carregou outra pessoa por nove meses, deu à luz, amamentou. Quer perfeição maior que isso? Pouco importam minhas estrias nos seios, minha barriga saliente (pochetinha, né gente!), meu peito meio caído, minhas celulites nas coxas e bumbum. Ah, tive estrias na barriga também, e tudo bem!

Eu vou comer salada em um almoço, mas também vou comer um chocolate na TPM. Eu não vou tomar refrigerante todo dia, mas eu vou tomar uma Coca-cola geladinha de vez em quando. Eu posso não ter uma barriga definida, mas eu tenho bom-humor. Eu posso não pesar 50kg, mas eu sou uma pessoa legal.

Portanto, não me meça pela minha aparência. Ela é apenas a pontinha de um iceberg. Quem eu sou de verdade está muito além do que você enxerga.

Ah, e hoje, pode me chamar para a piscina!

Recado para as minhas amigas

Minhas amigas, vocês foram a inspiração para este post. Quero que vocês saibam que as amo incondicionalmente, estejam vocês com o corpo que estiverem.

Quero que vocês saibam que vocês não inspiram só as minhas escritas, mas várias partes da minha vida. Vocês são mulheres fortes, batalhadoras, engraçadas, inteligentes e gentis. Isso as fazem serem únicas e especiais para mim.

Lembrem-se que ninguém ama apenas um corpo bonito. Ninguém ama apenas um peito empinado ou um bumbum malhado. O amor é muito mais do que pele, do que peso, do que medidas. Amem-se em primeiro lugar. Amem a mulher que vocês se tornaram: íntegras, empáticas e bem-sucedidas. Cuide da sua saúde, mas faça isso por você, e não para uma sociedade hipócrita e mercenária. Escolham parceiros que as amem dia após dia, tanto no manequim 36 quanto no efeito sanfona. Lembrem-se que no amor não cabem cobranças e humilhações. E saibam apreciar uma coxinha, um bolo ou uma massa sem sentir culpa. Vocês podem não acreditar: mas vocês são MARAVILHOSAS!