Bem estar materno e infantil

Por que estamos tão insatisfeitas com o nosso corpo?

Minha filha fez dois anos e, durante a sua festinha, eu notei um comportamento feminino que me fez ficar bastante chateada. Ao chegar com a bandeja de salgados típicos de uma festa infantil (coxinha, bolinha de queijo, croquetes, etc), muitas mulheres olhavam para mim sem graça e diziam “é, eu vou pegar mais um, porque eu estou gordinha mesmo né!”.

Não foi uma e nem duas mulheres que tiveram esse comportamento. Foram umas 4 ou 5 (o que foi muito, considerando que era uma festa bem pequena e íntima).

Devo dizer que eram 4 ou 5 mulheres importantes para mim. 4 ou 5 mulheres lindas. 4 ou 5 mulheres que eu admiro. 4 ou 5 amigas que eu amo.

Fiquei pensando por dias: “Poxa, o que está acontecendo conosco?”

A minha história e minha trajetória com peso e auto imagem

Na foto vemos um prato branco com uma carinha infeliz desenhada.

Quando eu era criança, com uns 8 ou 10 anos, eu era magra. Muito magra! Eu olho as minhas fotos de antigamente e vejo perninhas finas, ossos protuberantes, quadril e cintura pequenos. Eu nunca fui uma criança fofinha, com dobrinhas e com bochecha de comercial de fralda. Minha filha, por sinal, é assim também.

Logo que eu menstruei, lá pelos 12 anos, eu tinha um ciclo irregular. Depois de alguns exames, eu descobri que tinha a Síndrome dos Ovários Policísticos (o famoso SOP). Com uns 16 anos eu passei a ganhar peso assustadoramente, boa parte causado pelo descontrole hormonal. Com 17 anos eu tinha engordado 20kg e pesava 70kg. Isso me deixou com a autoestima no pé (no subsolo, para ser sincera).

Eu não tinha roupas que me servissem, me achava feia e evitava piscina, mar e qualquer coisa que mostrasse um pouco do meu corpo. Podia estar um sol lindo e quente lá fora, mas eu estava sempre de calça e, não poucas vezes, de moletom.

Eu já sofri MUITO com peso. Já fiz dietas malucas, já passei fome pra caramba, já fiquei com fraqueza, já tomei laxante para perder peso, já coloquei uma trufa de chocolate na boca e cuspi antes de engolir (que horror!). E embora eu nunca tenha passado por um distúrbio alimentar sério, eu já chorei muito, me descontrolei e me tranquei em casa por dias por causa da minha aparência. Já recusei inúmeros convites para ir para casas com piscina, para praia e parques aquáticos (e quem me conhece como eu amo água).

Já sofri alguns preconceitos também! Certa vez ouvi de um médico que se eu não me cuidasse, meu marido arrumaria outra (claro que eu levantei da poltrona e fui embora do consultório sem ao menos respondê-lo).

De tudo que eu já passei, senti e ouvi, é como se:

  • O amor se restringisse ao peso e à aparência da parceira;
  • Para ser bonito é preciso ser magro;
  • Para não ser traída, é preciso ser magra;
  • Pessoas acima do peso não são bonitas;
  • Pessoas acima do peso não são amadas.

Gente, esse assunto é GRAVE! Esse assunto tem que ser abordado, tem que ser discutido, tem que aparecer! Estamos tratando a imagem alheia de qualquer jeito, sem um mínimo de cuidado e sem um mínimo de respeito. Estamos invadindo de tal maneira a privacidade das pessoas que estamos nos tornando seres cruéis.

Estamos educando nossos filhos para apontarem dedos. E estamos ensinando nossas meninas que para ser bonita, é importante se enquadrar no que a sociedade diz, não importa a sua genética, seu metabolismo, sua raça ou sua cultura.

Perdemos a noção da diferença do que é cuidar da nossa saúde e ensinarmos nossos filhos a cuidarem das deles e do que é ser medíocre e preconceituoso.

E isso tem trazido consequências terríveis para as nossas crianças e para os nossos jovens. Cada vez mais vemos jovens sofrendo de transtornos alimentares, incluindo a anorexia e a bulimia.

Vamos aos dados!

O tema já foi abordado em diversas revistas e jornais nacionais e nos trazem dados chocantes [1][2][3][4][5][6][9][10]:

A imagem mostra uma série de dados sobre distúrbios alimentares.

E tudo isso para que?

Já vi mulheres se pesando diariamente, comendo uma folha de alface no almoço e uma no jantar. E isso pra que? A sensação de felicidade ao entrar em uma calça 34 ou 36 é tão grande assim que compensa ser infeliz durante todo o percurso para se chegar ao tão sonhado manequim?

Eu acho incrível mulheres que se aceitam do jeito que são: magras, gordas, altas, baixas, loiras, morenas. Acho o máximo mulheres cheinhas que usam shorts curtos e não estão nem aí para as suas celulites.

Acho lindo mulheres magras que comem um chocolate quando querem. Uma coisa é querer emagrecer para ter saúde, outra muito diferente é emagrecer para se sentir aceita. É maravilhoso se aceitar!!!!

Na foto vemos uma imagem em preto e branco de uma mulher olhando para a câmera e chorando.

Se nós soubéssemos como nossos comentários podem ser desastrosos na vida de alguém, certamente falaríamos menos.

Hoje, aos 30 anos, eu consigo me aceitar melhor. Tenho minhas tempestades internas ainda, mas tenho um imenso orgulho do que meu corpo foi capaz de fazer. Ele carregou outra pessoa por nove meses, deu à luz, amamentou. Quer perfeição maior que isso? Pouco importam minhas estrias nos seios, minha barriga saliente (pochetinha, né gente!), meu peito meio caído, minhas celulites nas coxas e bumbum. Ah, tive estrias na barriga também, e tudo bem. Eu sou única neste mundo, e só isso já me faz especial!

Eu vou comer salada em um almoço, mas também vou comer um chocolate na TPM. Eu não vou tomar refrigerante todo dia, mas eu vou tomar uma Coca-cola geladinha de vez em quando. Eu posso não ter uma barriga definida, mas eu tenho bom-humor. Eu posso não pesar 50kg, mas eu sou uma pessoa legal.

Portanto, não me meça pela minha aparência. Ela é apenas a pontinha de um iceberg. Quem eu sou de verdade está muito além do que você enxerga.

Ah, e hoje, pode me chamar para a piscina! 🙂

Recado para as minhas amigas e leitoras

A imagem tem uma frase e um corpo de madeira.

Minhas amigas, vocês foram a inspiração para este post. Quero que vocês saibam que as amo incondicionalmente, estejam vocês com o corpo que estiverem.

Quero que vocês saibam que vocês não inspiram só as minhas escritas, mas várias partes da minha vida. Vocês são mulheres fortes, batalhadoras, engraçadas, inteligentes e gentis. Isso as fazem serem únicas e especiais para mim.

Lembrem-se, mulheres, que ninguém ama apenas um corpo bonito. Ninguém ama apenas um peito empinado ou um bumbum malhado. O amor é muito mais do que pele, do que peso, do que medidas. Amem-se em primeiro lugar. Amem a mulher que vocês se tornaram: íntegras, empáticas e bem-sucedidas. Cuide da sua saúde, mas faça isso por você, e não para uma sociedade hipócrita e mercenária. Escolham parceiros que as amem dia após dia, tanto no manequim 36 quanto no efeito sanfona. Lembrem-se que no amor não cabem cobranças e humilhações. E saibam apreciar uma coxinha, um bolo ou uma massa sem sentir culpa. Vocês podem não acreditar: mas vocês são MARAVILHOSAS!