Gravidez

E quando o casal sofre com problemas de fertilidade?

Ter filhos faz parte dos sonhos de muitas famílias. Muitos casais se planejam para receber seus filhos e, de repente, se deparam com um quadro de infertilidade. Como seguir adiante quando seu sonho parece tão distante?

Na imagem se encontra um ursinho de pelúcia infantil  jogado no chão.
A infertilidade está presente em 15% da população mundial em idade fértil, segundo a OMS. (Imagem: Unsplash)

Ter filhos faz parte dos sonhos da maioria dos casais. Muitos se imaginam estáveis financeiramente com filhos alegres pulando por toda parte, e se planejam anos a fio para isso. E então, depois de muitas tentativas frustradas, vem o diagnóstico: problemas com fertilidade. Como seguir adiante quando tudo que queremos parece estar tão distante? Como continuar acreditando e tendo esperanças quando seu sonho parece tão difícil de se concretizar?

Se você está passando por esse problema, saiba que você não está sozinho (a): de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que 15% da população mundial em idade fértil sofre de problemas de fertilidade. Algumas causas para a infertilidade ainda estão sendo estudadas pela medicina, mas algumas associações já foram feitas, como alterações hormonais, idade, sobrepeso, endometriose, síndrome dos ovários policísticos (SOP), alterações espermáticas nos homens, alterações genéticas, alterações imunológicas e a infertilidade sem causa aparente.

Independente da causa, a infertilidade é algo que causa uma grande tristeza para aqueles que estão passando por ela, com momentos de grande euforia e esperança e outros de grande desapontamento e desesperança. Muitas vezes, essa dor é intensificada pelos parentes e amigos que, sem suspeitar dos problemas pelos quais o casal está passando, fazem piadinhas e brincadeiras de quando finalmente o herdeiro vai aparecer.

Acho que é por essas e outras razões e eu nunca gostei desse tipo de pergunta. E raramente a faço para alguém. Primeiro porque é algo extremamente íntimo, que só diz respeito ao casal. E segundo, porque nunca sei se, de repente, esse casal está tentando ou não.

Síndrome dos Ovários Policísticos – A minha história

Com 13 anos de idade eu fui diagnosticada com o famoso SOP. Uma das características principais do SOP é que a mulher não ovula com a frequência correta. Na verdade, em alguns meses ela nem chega a ovular. Por isso, quem tem esse problema, apresenta uma menstruação completamente desregulada: você nunca sabe quando vai menstruar e, consequentemente, nunca sabe quando está ovulando.

Embora a SOP não cause infertilidade em si, ela dificulta bastante uma gravidez. É por isso que ao longo do meu casamento eu e o meu marido passamos por altos e baixos nesse assunto. Primeiro porque, desde adolescente, eu ouvia dos médicos o quanto seria difícil eu engravidar naturalmente (sem um procedimento de indução de ovulação, por exemplo). Segundo porque, talvez por ter ouvido tanto sobre as dificuldades de engravidar, eu já tinha colocado na minha cabeça que eu não ia conseguir. E terceiro porque, por eu não acreditar em mim e no meu corpo, muitas vezes eu me fechava e não queria nem discutir sobre isso.

Era um assunto tabu em casa. Eu não queria falar sobre isso com ninguém. Me sentia mal comigo mesma (afinal, era eu quem tinha o problema) e muitas vezes me tranquei no banheiro e chorei por horas a fio. Eu negava para mim mesma, mas a verdade é que eu sempre quis ser mãe. Era meu sonho desde criança. Eu nunca soube qual profissão eu queria ser, mas eu sempre soube que eu queria ter um filho. E eu sempre fui loucamente apaixonada por bebês.

No ano de 2013, durante uma viagem para a Europa, eu e meu marido resolvemos tentar. Eu me preparei toda, fiz os exames necessários, tomei o tal do ácido fólico e lá fomos nós, ambos super esperançosos. Eu estava muito bem na minha carreira, estava casada há dois anos e era uma jovem cheia de energia e saúde. Tentamos por um, dois, três, quatro…. doze meses. E nada. Quanta ansiedade! A cada menstruação, lá se ia um pouco da minha esperança. Depois de um ano de tentativas completamente fracassadas, eu voltei para a pílula. Não tinha jeito, eu pensava, eu nunca vou conseguir mesmo.

Foram épocas bem difíceis para mim. Aconteceram n coisas nesse período: eu perdi meu emprego, minha cachorrinha morreu, tive um problema familiar e desenvolvi stress pós-traumático em seguida. Hoje eu vejo que uma gravidez naquele momento teria sido completamente fora do momento. Mas na hora, você não enxerga isso.

Bom, para finalizar, em 2016 eu pedi à minha médica para refazermos os exames, porque eu queria saber como estava meus ovários. Mas para isso, eu precisaria parar a pílula. Parei em Julho de 2016 e em Agosto de 2016 eu estava grávida da minha doce e amada filha. Assim, sem tratamento nenhum, sem indução, sem ansiedade, sem nada.

O que ficou de tudo isso é que, hoje, eu sei o que é passar pela infertilidade. Mesmo tendo sido um ano apenas, eu consigo compreender o quanto isso é difícil para os casais. É como acordar de um sonho lindo, é como ver escapar pelos seus dedos a sua maior realização.

O que fazer (por mais difícil que seja) quando se está passando por isso?

A imagem mostra um casal se abraçando e de mãos dadas.

Podem parecer conselhos banais ou simples demais, mas eles fazem toda a diferença.

Fale sobre isso com alguém

Por mais difícil que seja tocar nesse assunto, fale com alguém sobre isso. Desabafe, abra o seu coração, chore se for preciso, xingue um pouco se isso te fizer se sentir melhor. Não se feche em uma bolha como eu fiz um dia. Se você não se sente a vontade para conversar com um parente, converse com uma amiga. Mas fale! Guardar só para você só vai aumentar sua tristeza e decepção.

Se permita sentir tristeza

No ano em que nós tentamos engravidar eu me sentia muito triste quando alguém me contava que estava esperando um bebê. É claro que eu ficava muito feliz pela pessoa e pela criança que estava por vir. A tristeza era comigo mesma (“porque só eu não consigo?”), e muitas vezes eu me sentia culpada por estar me sentindo assim. Mas isso é normal. Descobri ao longo dos anos que validar os nossos sentimentos é importante para conseguirmos lidar com eles. Portanto, se permita sentir tristeza de vez em quando, afinal, você é humano.

Seja parceiro (a) do seu cônjuge

Não importa se a causa da infertilidade esteja em você. Não conseguir engravidar é um problema do casal e nessas horas o que mais vocês precisam é se unir para um levantar o outro nos momentos de tristeza. Juntos vocês são mais fortes. Conversem a respeito, discutam sobre a possibilidade de procurar um tratamento médico, sejam parceiros um do outro. Vocês estão no mesmo barco, então se unam.

Nunca, jamais, culpe o outro pela infertilidade

Ninguém precisa desse tipo de cobrança, até porque, além de ser extremamente cruel, não resolve o problema. Nessas horas, a relação precisa se estreitar e não virar um campo de guerra. Por mais que vocês tenham um dia uma briga homérica, lembre-se que ninguém quer ter um problema, ninguém fica feliz com um SOP, ou uma endometriose, ou espermatozoides lentos, por exemplo. Ninguém escolhe por isso.

Busque ajuda, se você sentir necessidade

Buscar ajuda profissional, como uma terapia ou uma terapia de casais, pode ajudar muito a passar por momentos como esse. Aprender a lidar com a ansiedade, com as frustrações e com os desapontamentos é importante para você manter a sua saúde mental, tão importante quando alguém quer ter um bebê. Aprender a ser mais resiliente também te torna mais forte e mais seguro não só para passar por esse problema, mas por outros que fazem parte da vida.

Busque um médico em quem você confia

Ao longo de um problema de infertilidade, milhares de tratamentos, exames e procedimentos são requisitados. Tenha ao seu lado um médico que te passe confiança e que seja uma pessoa empática com o seu problema. É importante que você possa esclarecer todas as suas dúvidas, que ele te explique como os procedimentos irão ocorrer, quais as chances reais de darem certo, qual o custo exato de tudo isso. Um profissional competente nesse momento é crucial e faz toda a diferença.

Não se foque apenas nos seus problemas

Já vi conhecidas que deixaram de ter uma vida normal e uma relação saudável com seus parceiros porque não tiravam esse problema da cabeça nenhum segundo do dia. A ansiedade já é algo que atrapalha muito quando você quer engravidar, e pensar nisso o dia todo pode te trazer verdadeiros problemas, tanto para a sua saúde, quanto para o seu casamento. Portanto, por mais difícil que possa parecer, se foque em outras coisas: seu trabalho, seu hobby, seus amigos, você mesmo. Enfim, ocupe sua cabeça de alguma maneira, afinal “cabeça vazia, oficina do dia…”.

Não se culpe

Não se sinta menos mulher ou menos homem porque você está passando por isso. Existem situações que nós simplesmente não temos controle. O que cabe a nós é fazermos o que está ao nosso alcance. Aquiete o seu coração, permita-se se sentir triste de vez em quando, mas quando a tristeza passar, erga a cabeça e siga em frente!

Não se compare com os outros

A comparação é a maior inimiga da felicidade. As vezes, aquela família com 5 filhos está passando por outros problemas graves que você nem imagina.

Não perca o melhor de você

Não é porque você está passando por um problema que você deve descontar isso nos outros e se tornar um limão azedo. Tinham dias em que eu não queria conversar com ninguém, e isso é ok. O que não é ok é se virar contra o mundo e extravasar sua frustração nas outras pessoas. Não perca o que você tem de melhor para a dor.

Você está no século XXI

Lembre-se que nós temos uma medicina 1000 vezes mais avançada que os nossos avós. Embora o problema da infertilidade ainda exista, também existem dezenas de formas de driblá-la. Algumas mais caras e outras mais baratas, algumas mais invasivas e outras menos. O que importa é que muitos e muitos casais realizam o sonho de terem um (ou mais) bebê graças às tecnologias médicas. Portanto, pesquise, se informe, se planeje e corra atrás de um especialista de confiança.

Leia sobre os tratamentos alternativos

Lembro que, antes de engravidar, eu fiz um tratamento de acupuntura (que não tinha o foco de me fazer ovular). Se ajudou eu não sei, mas já está comprovado cientificamente que a acupuntura apresenta efeitos benéficos na infertilidade [fonte]. Além de reduzir a ansiedade, ela tem ação sobre a ovulação, podendo melhorar a qualidade dos óvulos, e sobre a implantação do embrião, pelo aumento da vascularização do endométrio.

“Não gosto desse tipo de pergunta”

Pode parecer meio ríspido responder isso quando alguém lhe pergunta porque você ainda não tem filhos ou algo do tipo. Mas mais ríspido ainda é fazer esse tipo de pergunta. Se isso te incomoda, deixe a pessoa saber que esse assunto não é bem vindo. Mesmo eu tendo uma filha, eu detesto quando alguém me pergunta quando eu vou ter o segundo. Poxa, mesmo se eu estiver me planejando para ter mais um bebê daqui um ano, eu não vou sair por aí contando. Isso é meu, eu sou super discreta. Portanto, se você sente que alguém está invadindo a sua privacidade, fale isso com jeitinho, mas fale.

Recorra à sua fé

E aqui eu nem estou falando de religião em si. É claro que se você frequenta uma determinada igreja, é super válido pedir uma oração. Se você de repente é espírita, vale a pena passar por um tratamento espiritual, e assim vai. Todos nós acreditamos em algo, mesmo que seja em uma força superior ou na força do universo. Recorra ao que você acredita, com toda a sua fé. Isso nos acalenta, esquenta nosso coração e dá o conforto que nossa alma precisa.

Busque por pessoas que passaram por isso e tiveram sucesso

Quando eu conheço alguém que está passando por esta fase, eu sempre recomendo o canal da Flávia Calina. Eu acompanho a Flávia há uns bons anos. Ela é uma mulher muito doce, que faz um trabalho muito lindo no Youtube. Hoje ela tem três filhos, mas ela e o marido passaram 7 anos lutando contra a infertilidade. Ela fez muitos vídeos no canal dela falando sobre o que eles sentiam, sobre a FIV que fizeram (os três filhos dela existem graças a FIV), sobre infertilidade masculina e por aí vai. Além da Flávia, procure por pessoas que já passaram por isso com sucesso: isso ajuda a manter a esperança e a seguir firme no seu propósito. (Olha o meu exemplo ali em cima: mesmo com SOP, eu consegui!).


É claro que este post aborda de forma bem ampla um tema tão complexo. Não existe uma forma de fazer um único post completo sobre esse assunto, já que ele aborda muitas peculiaridades. Vamos voltar a falar disso aqui no Canto da Isa, mas hoje eu só queria te dizer que você não está sozinho nessa. Que muitas coisas estão sendo pesquisadas para realizar o sonho da maternidade/paternidade. Que, por mais difícil que esse assunto seja, desabafe com alguém sobre ele. E não desista, se é isso que te move e que você realmente deseja, não desista!

Um abraço, com carinho.