Desenvolvimento infantil

Deixe sua criança ser criança: pais super protetores e filhos super inseguros

Nós como pais sempre queremos proteger os nossos filhos ao máximo, né? Mas até onde a nossa superproteção faz bem à eles? Até onde protegê-los dos perigos saudáveis das brincadeiras infantis ou de frustrações com os amiguinhos podem ser benéficos?

A imagem mostra uma criança brincando em um playground. Desenvolvimento infantil.
Deixar seu filho correr riscos seguros pode ser benéfico, segundo os estudos. (Imagem: Unsplash)

Correr riscos saudáveis como parte do desenvolvimento infantil

“Não corre, filho, senão você vai cair”. “Cuidado com essa escadinha do playground. Vem cá que te ajudo a subir”. “Não vai subir na árvore, porque você pode se machucar”.

Vivemos falando sobre o que queremos para os nossos filhos: que eles cresçam felizes e independentes. Mas como tornar um adulto independente, se na infância o privamos de qualquer roxo nas pernas e qualquer desafio que pode ocorrer à eles?

Na primeira semana de Junho de 2019, o Estadão publicou uma matéria afirmando que algumas pesquisas têm mostrado que o desenvolvimento das crianças é muito melhor quando elas se expõem a riscos saudáveis (saudáveis, tá gente! Não vamos confundir com riscos à vida ou à integridade da criança, como atravessar uma rua desacompanhada ou pular de uma janela do primeiro andar!).

Segundo os estudos, encorajar a vontade dos pequenos de desafiar alguns próprios limites ajuda a formar pessoas mais seguras, resilientes e com melhores habilidades sociais e de aprendizado. Isso porque essas crianças acabam desenvolvendo habilidades físicas e compreendendo seus limites desde a fase infantil. 

Voltando um pouco no tempo, eu me lembro dos roxos nas minhas pernas conquistados graças ao carrinho de rolimã que eu descia a mil por hora em uma ladeira perto de casa. Também me lembro do fato que eu conhecia cada galho de cada árvore da vizinhança, tendo inclusive decorado qual aguentava meu peso de menina da maneira mais segura. A medida que eu crescia, eu calculava quais passos eu podia dar. Aos 12 anos, eu adorava brincar de chá na casa da caixa d’água da minha casa, que ficava entre o telhado e a laje, uns bons 10 ou 12 degraus de uma escada encostada na parede. Dali de cima, eu podia dar uma olhada nas casas vizinhas e no bairro. Era libertador, mesmo que de vez em quando me custasse uns arranhões no braço e nos joelhos.

Tento me lembrar o que minha avó ou minha mãe falavam disso. Deviam falar alguma coisa, mas nunca me proibiram de subir em uma árvore, ou de descer com o rolimã ou de brincar na laje de casa. Eu sabia dos meus limites. Sabia que precisava posicionar a escada de maneira adequada, sabia que tinha que testá-la antes, sabia que tinha que subir devagar e que na hora de descer a cautela tinha que ser maior do que na subida. Eu sabia que o carrinho de rolimã não tinha um freio bom e que era melhor eu ir de tênis, porque podia perder a sola dos pés no asfalto. Eu sabia que tinha um buraco na esquerda, que a rua era pensa para a direita, que em tais e tais horas haviam mais carros ali. Eu sabia qual galho da árvore machucava menos, qual caminho fazer entre as folhas, até onde a árvore me aguentava. Em outras palavras, eu sabia até onde eu podia ir.

Hoje, sendo mãe, eu tenho que respirar fundo quando minha filha de 2 anos insiste em subir sozinha a escada do parquinho. Ou quando ela quer descer de um escorregador que possui o dobro da minha altura. Ou, ainda, quando descer sentada já não é tão legal assim; afinal, descer de barriga para baixo é muito mais divertido. Sinto meu coração batendo forte quando ela corre perto da piscina, passando por um triz da borda.

É claro que é tudo checado, tudo supervisionado e monitorado por nós, afinal ela só tem 2 anos. Fora assim comigo também, durante minha infância exploratória. Eu estou ali para acudir, para socorrer, para secar as lágrimas se um tombo acontecer. Mas, graças às minhas respirações e palpitações cardíacas, eu já tive o prazer de perceber que ela sabe o seu limite. Se o balanço está rápido demais, ela diz “mamãe, mais devagar”, se a escada é muito desafiadora, eu escuto “mamãe, me ajuda?”, se a árvore está escorregadia eu já sei que “hoje não, mamãe”.

Pais super protetores, filhos super inseguros

Um estudo conduzido por pesquisadoras da Universidade do Porto salienta que a inibição da exploração e da individualidade da pessoa na infância conduz a uma dependência da criança por outras pessoas e ao medo que elas podem vir a sentir de se arriscarem em novas relações, ocasionando as fobias sociais, e de se afastarem dos locais conhecidos por elas (medo de viajar, de mudar de cidade, etc.). E não para por aí: quando os pais não facilitam a aquisição da autonomia surge uma propensão para a dúvida e para a vergonha, relacionadas com a incapacidade de não conseguir dominar a si próprio, gerando medo de não conseguir dominar a si mesmo e perder o controle, o que pode ser um start para comportamentos compulsivos e obsessivos (TOC).

Esse supercontrole se torna mais latente na medida em que a criança sofre ou sofreu de algum problema de saúde ou síndrome. Pesquisadores da UNICAMP identificaram sentimentos e métodos de criação de pais de crianças diagnosticadas com epilepsia. Foram observados comportamentos de superproteção, permissividade e observação exagerados, associados a sentimentos de insegurança dos pais em relação ao controle das crises dos filhos. Isso, segundo o estudo, pode trazer alterações na dinâmica familiar e condicionam na criança epilética comportamentos de dependência, insegurança, medo e adoção do papel de doentes. Seguindo nessa mesma linha, um estudo realizado por uma pesquisadora da USP apontou algumas questões do comportamento de pais de crianças com deficiência visual, humildemente resumido aqui: “Os pais que adotam uma atitude de superproteção para com seus filhos, fazendo tudo por eles, inclusive aquelas atividades que eles poderiam facilmente realizar, além de estarem impedindo importantes experiências favorecedoras de seu desenvolvimento, estão, também, transmitindo-lhes um conceito de incapacidade e insuficiência de difícil superação”.

Outro estudo bastante interessante feito por uma psicóloga teve como objetivo entender a relação entre excesso de atividades, consumo e superproteção dos pais como possíveis fatores de tédio em crianças. Os resultados apontaram que o comportamento super protetor é considerado um limitador da liberdade e do desenvolvimento da autonomia das crianças.

Ou seja, ao resolverem todos os problemas dos seus filhos, pais helicópteros como são chamados os super protetores, causam outros: prejudicam etapas cruciais de desenvolvimento psicossocial, diminuindo a capacidade resolutiva e de tolerância dos filhos, de acordo com outra pesquisa.

Mas, então, o que fazer?

Vou te responder essa pergunta de duas maneiras: como mãe e como pesquisadora nessa área.

Como mãe: respire, mas respire messssmo! Contenha a vontade de correr atrás do seu filho enquanto ele sobe no degrau do playground. Conte até 10 quando ele estiver tendo algum conflito com um amiguinho do condomínio. Controle a sua ansiedade em querer resolver tudo por e para ele.

Como curiosa da área: Lembre-se que certos riscos menores e saudáveis são necessários. A vida não é só um dia ensolarado de primavera, com flores e risadas. A vida é muito dura em certos momentos. E é exatamente a nossa capacidade de reagir ao que nos incomoda que nos fazem crescer e seguir em frente.

Se o parquinho não apresenta um perigo REAL, que pode colocar a vida e a segurança do seu filho em risco, estimule-o a explorar. Ao invés do “te ajudo”, tente um “experiente sozinho, você consegue!”. Ao invés de um “não, é perigoso!”, mude para “vá com calma e preste atenção para não cair”. Ensine o seu filho. Mostre os caminhos… mas deixe que ele percorra a trajetória com os próprios pés.

Na imagem vemos uma criança pulando obstáculos em um parquinho.

Confie na criança também. Confie no instinto que cada ser humano tem de evitar o perigo.

Mostre ao seu filho os riscos e os desafios; ensine a ele como se defender, como fazer, como subir com cautela. Mas não se arrisque e não faça por ele.

Lembre-se: um dia, você não estará ao seu lado.

Pais equilibrados x Pais negligentes

Se você chegou até aqui e ainda está com a pulga atrás da orelha pensando que, ao deixar seu filho explorar, estará sendo negligente, veja a diferença.

Um pai negligente é aquele que permite que os filhos façam o que bem entenderem sem avaliar as consequências. São aqueles que estão tão imersos em seus próprios problemas e afazeres, que não se importam com os filhos, inclusive com a segurança e integridade física deles.

Pais que não colocam redes de proteção em apartamentos são pais negligentes. Pais que deixam seus filhos pequenos brincarem em ruas movimentadas sem supervisão são pais negligentes. Pais que agridem seus filhos (tanto fisicamente quanto emocionalmente) são pais negligentes. Pais que não assistem às necessidades básicas e afetivas das crianças são pais negligentes.

É completamente diferente do que estamos tratando aqui.

Ser um pai ou uma mãe equilibrado o suficiente para ensinar conceitos como “você pode”, “você é capaz” e “você consegue”, é nossa responsabilidade para com os nossos filhos. É ser responsável o suficiente para saber que um arranhão na canela não é sinal de doença, mas que faz parte de uma infância saudável e completa. É saber que é saudável a criança querer testar seus limites, desde que isso não a coloque em risco. É estar ali presente e saber até que ponto deixar e quando é hora intervir e mudar o foco.

É ser equilibrado o bastante para saber que o seu filho e o amiguinho vão fazer as pazes por si mesmos. É descobrir que uma criança pode muito mais do que imaginamos. É dar um crédito de confiança à ela.

É não chegar para um adolescente assustado e medroso e dar um tapinha nas costas quando ele passa na universidade e achar que você fez o seu papel. Mas sim dar vários tapinhas nas costas depois de pequenas conquistas desde lá da infância.

É um dia ver seu filho adulto superar uma dificuldade pessoal das grandes e sair mais forte e mais sábio dela. Esse é o nosso verdadeiro papel. É nessa hora que podemos respirar e pensar:

“Aí está, eu fui um bom pai, uma boa mãe!”

Fontes consultadas

CAFARDO, Renata. Estudos contrariam pais superprotetores e sugerem parquinhos ‘perigosos’ a crianças. Jornal Estadão, 2019.

SOUZA, Elisabete A. P.; NISTA, Claudia R.; SCOTONI, Anna Elisa; GUERREIRO, Marilisa M. Sentimentos e reações de pais de crianças epiléticas. Arquivos de Neuropsiquiatria, v. 56, n. 1, 1998.

SILVA, Maria da Graça; COSTA, Maria Emília. Vinculação aos pais e ansiedade em jovens adultos. Psicologia, v. 18, n. 2, 2005.

AMIRALIAN, Maria Lúcia T. M. A deficiência redescoberta: a orientação de pais de crianças com deficiência visual. Revista Psicopedagogia, v. 20, n. 62, 2003.

KUNSCH, Clarice K. Excesso de atividades, consumo e superproteção: possíveis fatores de tédio em crianças. Revista Acadêmica de Educação do ISE Vera Cruz, v. 4, n. 1, 2014.

DE PAULA, João Miguel P. Estilos parentais, inteligência emocional e o enfant terrible: relações, implicações e reflexões. Revista de Enfermagem, n. 8, 2012.