Papo de mãe

Carta aberta ao pai ausente

Sabe, eu sinto muito mesmo.

Nem tanto por mim, eu sinto mesmo por você.
Relaxa, eu não estou agindo por impulso, nem com rancor. Você pode não saber, mas eu já sou uma adulta. E ao longo desses anos eu já senti milhões de sentimentos por você.

Já tive raiva, sim. Já tive vergonha. Já senti muita tristeza.
Você sabia que nos primeiros anos eu inventei vários esteriótipos para você? Várias vezes eu criei histórias para você ter ido embora. E, muitas vezes, até acreditei nelas.
Eu também já me senti com medo com a sua ausência. As pessoas falam coisas ruins de filhos que crescem sem os pais, sabia? Principalmente das meninas. Ah, e falando em meninas, eu as vezes me perguntei se você se foi porque queria um menino. As meninas são legais. São mesmo! Os meninos também são, e ambos têm os mesmos sentimentos perante uma ausência tão presente.

É engraçado, mas um dia eu resolvi te perdoar. Eu nunca te procurei, nunquinha, nem na internet, sabia? Será que você ainda está vivo? Será que tem pressão alta? Ou diabetes? Será que já nos cruzamos, sem saber, por aí? Eu não te procurei, mas eu te perdoo. Te perdoo mil vezes porque você perdeu a chance de ter um convívio com uma filha que tem muitas habilidades, sabia? Eu sou boa em escrever, sou realmente boa nisso. Adoro estudar também; você nunca teria se frustrado com um boletim meu. Nunquinha.

Você lembra a data do meu aniversário? Sabe quantos anos eu tenho? Será que um dia você procurou, meio escondido talvez, meu nome no Facebook?
Talvez você nem lembre meu nome, e tudo bem se não lembrar. Talvez você se pergunte se deveria me procurar. Será que deveria? Deveria sim. Talvez algumas pessoas não gostariam muito do nosso reencontro. Sua família, se é que você tem uma. Ou a minha, que você conheceu tão bem um dia. Mas não os culpe, nem à sua e nem à minha.

Não deu certo com a minha mãe né. Mas isso é tão comum, já reparou? Eu tive um monte de colegas com pais separados. Mas, felizmente, poucas com o pai ausente. As vezes, quando vou jantar fora, e vejo o pai sozinho com as crianças, tenho vontade de ir lá perguntar o que fez ele ficar. Assim como queria te perguntar, um dia, o que te fez ir.

Não se culpe tanto também, se algum dia você se culpou. Você me deu aquilo que tinha para me dar naquele momento. E você me deu a vida. Talvez tenha me dado um nariz parecido ou os olhos da cor dos seus, vai saber.

Pai (que estranho falar essa palavra, eu não sei se eu já disse ela algum dia, mas devo ter dito porque tenho uma ou duas memórias nossa), eu sinto muito por você. Pelo que a vida nos pregou. Pelas escolhas que um dia não foram as melhores. Eu sinto muito por você não ter me visto linda no vestido de formatura da escola. Por não ter sentido ciúmes do meu primeiro namorado. Por não ter pulado de alegria junto comigo no dia em que passei na faculdade. Sinto muito por você não ter me acompanhado até o altar um dia. E por você nunca ter conhecido sua neta.

É, você é avô. Não sei se você tem mais netos, mas te garanto que tem uma menininha linda e esperta pra caramba que carrega os seus genes. Ela tem um avô, por parte de pai, que é muito legal. Mas ela é pequena ainda, então ela não tem noção do que é um espaço vazio na árvore genealógica (e biológica, devo ressaltar) que temos em casa. Mas um dia talvez ela pergunte. E eu vou responder que eu não sei se você está bem, ou se mora em outro país, ou se é careca, mas eu vou responder que um dia você existiu para mim.

Fisicamente. Porque sua lembrança existe para mim até hoje. Eu rezo por você, acredita? Para que você esteja bem e que sua família esteja bem. Tomara que você tenha casado de novo, tomara que tenha tido filhos e que seja bastante apegado à eles. Tomara que você e sua mulher, se você tiver uma, sejam próximos e grandes amigos.

Eu escrevo essa carta com uma certa melancolia no coração. Mas não por mim ou pela minha história. Ah não, se fazer de coitadinha não combina muito comigo. Eu sou bem corajosa, sabia? A melancolia é por saber que tem muitas e muitas crianças por aí que tem essa parte da vida super parecida com a minha. Hoje, sendo mãe, eu sei o quanto a presença do pai é importante e benéfica. Sinto tristeza ao pensar que muitos pais presentes são tão ausentes quanto aqueles que um dia partiram. E que muitas dessa crianças não tem uma rede de apoio tão extraordinária quanto a que eu tive.

Pai, eu sinto muito por você. Por não ter compartilhado a vida conosco. Por não rir das nossas piadas bobas, por não provar nossos testes culinários, por não ter embalado sua neta, tão pequenininha e cabeluda, ao nascer. Sinto muito por você. Você gostaria da minha nova família, gostaria do seu genro, amaria sua neta, se esparramaria no tapete com o nosso amoroso cão. Sinto muito pelo que você perdeu.

Você ia sentir orgulho de mim.
Ia ser completamente feliz.
Não é estranho saber que tem um pedaço seu aí pelo mundo que você não sabe se está vivo ou morto?
Não falta um pedaço na sua vida?

Na minha falta ou faltou, não sei bem. Mas hoje, não tem mais raiva. Nem vergonha. Nem tristeza. Nem medo.

Só perdão.