Desenvolvimento infantil

Por quê educar crianças feministas?

Vou começar este post refletindo sobre duas coisas que eu considero importantes. A primeira é que devemos educar nossas crianças, ou seja, nossas filhas e nossos filhos para serem feministas.

A segunda é sobre o que é ser feminista. Você sabe o que é feminismo? Mas sabe de verdade mesmo? Porque até algum tempo atrás eu não sabia. Se você acha que ser feminista é detestar o sexo masculino, se vestir de qualquer jeito, ter relacionamentos homoafetivos com outras mulheres, não ser delicada, não ser feminina ou ser raivosa, você não sabe o que é feminismo. Para te ajudar a entender o que é esse movimento, vou passar rapidamente sobre ele na seção seguinte.

O que é feminismo?

Lá atrás, na revolucionária França de 1791, uma mulher chamada Olympe de Gouges organizou junto com outras mulheres uma resposta à Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Essa resposta foi chamada de Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, que pedia às mulheres o direito ao voto, à propriedade e o acesso às instituições públicas. Olympe foi guilhotinada em 1793, sob o argumento de ter traído a natureza do sexo feminino.

Durante os séculos 18 e 19 as mulheres continuaram lutando pelo direito ao voto, o que foi conquistado em 1918, quando o voto feminino foi legalizado no Reino Unido, graças à britânica Millicent Fawcett. Mais tarde, o exemplo seria seguido pelos Estados Unidos (no Brasil, só conquistamos esse direito em 1932). (Fonte: Superinteressante)

O feminismo contemporâneo começou na década de 90. Alguns discursos se destacam, como as questões de gênero, “meu corpo, minhas regras”, empoderamento feminino, sororidade (união entre as mulheres), dentre outros.

Mas o mais legal, que é o que eu quero abordar aqui no Canto da Isa, é que o feminismo é um movimento social e político que tem como objetivo conquistar o acesso a direitos iguais entre homens e mulheres. Sendo assim, o feminismo NÃO é o oposto do machismo, pois enquanto o primeiro busca construir condições de igualdade entre os sexos, o segundo coloca o homem em posição de superioridade em relação à mulher.

Por mais incrível que possa parecer (ou não, depende da sua história de vida), em pelo século XXI, as mulheres ainda são as maiores vítimas da violência de gênero. Segundo a Revista Carta Capital, “no Brasil, a cada 12 segundos uma mulher é violentada, de acordo com a Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal, a cada 10 minutos, uma mulher é estuprada, de acordo com o Mapa da Violência, e a cada 90 minutos uma mulher é assassinada, de acordo com o IPEA. […] e as mulheres ainda ganham em média 30% a menos do que os homens para exercer a mesma função, de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)“.

Você pode até discordar de certos discursos do feminismo, mas há de concordar que ainda sofremos – e muito – com a falta de segurança, de apoio e de respeito por parte da sociedade como um todo (da sociedade, porque é bizarro ver que muitas mulheres agem contra outras mulheres). Tenho certeza absoluta que não é em um mundo discriminatório que você quer que os seus filhos e filhas cresçam. É por isso que é tão importante ensinar as crianças a serem feministas.

Como ensinar minhas crianças a serem feministas?

Pelo seu exemplo e pelo seu discurso. Parece pouco? Mas não é.

Crescemos em uma sociedade baseada em frases prontas e cheias de preconceitos. Quer ver só?

“Meninos não choram.”
“Brincar de boneca é coisa de menina.”
“Filho meu não assiste filme de princesa.”
“Sente como uma mocinha.”
“Rosa é cor de menina, escolhe outra cor.”
“Desse jeito não vai arrumar marido.”
“Quem tem que cuidar de filho é a mãe.”
“Cadê a mãe dessa criança?”
“É da natureza do homem trair.”
“Aquela mulher é uma galinha.”
“Saiu com tantos que não deve saber nem quem é o pai.”
“Que casa bagunçada. Cadê a sua esposa que não arrumou nada ainda?”
“Foi estuprada? Mas com aquelas roupas que ela andava, tava pedindo.”

Nossa, eu poderia ficar aqui falando mais umas 255415641545… frases, mas acho que já deu para entender o contexto triste e injusto em que vivemos né!

Seu discurso tem poder!

Se você convive com um parceiro que não faz absolutamente nenhum serviço doméstico e não cuida dos filhos, você deve sentir na pele o peso de uma educação machista, insensível e totalmente desprovida de empatia. Tentar mudar o seu marido, namorado ou companheiro à essa altura do campeonato é como enfrentar uma tempestade no mar dentro de um barquinho de papel. Você terá pouco – ou nenhum – sucesso.

Mas você pode mudar os seus filhos e o futuro deles.

Lembra daquelas frases ali em cima? Faça um esforço para mudar o seu discurso. Você acha realmente que se o seu filho brincar de boneca ele terá algum desvio de caráter? Ou será que, ao brincar de boneca, ele poderá se tornar um pai carinhoso e sensível com os filhos? Talvez tenha faltado uma boneca para o seu companheiro, não acha?

Você acha que o modo como a sua filha senta aos 3 anos de idade influenciará a vida toda dela? Ou você apenas está pressionando-a a adotar tal e tal comportamento apenas por ela ser uma menina?

Qual o motivo das roupinhas de bebês serem sempre ou azuis ou rosas? Porque não temos roupinhas verdes, laranja, roxo, branco, preto? Porque todos os sapatos infantis tem que ter o Batman ou a princesa Elsa do filme Frozen? Porque ainda agimos assim? Porque ainda empurramos goela abaixo nos nossos filhos questões tão ultrapassadas? Por que não deixar o menino chorar quando estiver triste ou deixar a menina pensar em casamento no dia que ela crescer e, o mais importante, se ela quiser?

Seu discurso tem mais força do que você imagina. Repense o que anda dizendo.

Brinquedos de meninas X brinquedos de meninos

Você chega na loja e já vem o baque: um corredor ou dois inteiros com coisas para meninas. Os brinquedos? Bonecas dos mais variados tipos, ferros de passar, vassouras, máquina de lavar roupa, mini liquidificador, mini batedeira, tábua de passar, panelinhas, frutinhas, caixas registradoras, cozinhas, sapatinhos de boneca, mini mamadeiras, e por aí vai. Tudo na cor rosa. Quando varia, é com lilás.

Me dá nos nervos! Ah, você detesta boneca e panelinhas? Não, eu adoro, para ser sincera. E compro para minha filha. Mas também compro ferramentas, carrinhos, trens, bolas de futebol, bonequinhos de super-heróis, dinossauros e Lego (muitooo Lego). Não vou apenas nos corredores rosas, mas nos azuis também (quem foi o tonto que inventou essa questão de cor?).

Chimamanda Ngozi Adichie em seu livro intitulado Para educar crianças feministas, salienta que os brinquedos para meninos são ativos e de estratégia, enquanto os voltados para as meninas são passivos. Isso talvez explique porque a maioria dos engenheiros, pilotos, motoristas, mecânicos, esportistas, eletricistas e políticos (dentre muitos outros) sejam cargos ocupados quase em sua maioria por homens.

Por isso, compre brinquedos pelos que eles são – se são legais, se são educativos, se são engraçados, se são estimulantes -, independentemente do gênero a que eles se destinam.

Mostre aos seus filhos que você é muito mais que mãe

Lembre-se que você é uma pessoa completa. Mãe, sim, esposa, talvez. Mas você também é um ser humano dotado de infinitas habilidades. Mesmo que você trabalhe em casa (na complexa e nada fácil tarefa de dona de casa), deixe seus filhos verem suas outras facetas. Mostre a eles que você é ótima administradora das contas da casa, que você sabe dançar ou cantar, que sabe dirigir muito bem, que sabe fazer pequenas reformas em casa.

Não se esqueça por conta da maternidade. Se arrume, ouça sua música favorita; mostre aos seus filhos que ser mãe é maravilhoso, mas não é preciso se anular para ser uma excelente mãe. Se você ama sua profissão, volte para sua carreira. Mostre às crianças que seu trabalho é importante para você. Seja feliz dentro ou fora de casa, mas seja feliz!

Não espere pelo pai o tempo todo

Não espere o pai chegar em casa depois do trabalho para a diversão começar. Ou para que pequenos detalhes sejam arrumados. Tome à dianteira, mostre que nós mulheres somos tão capazes quanto os homens.

Ensine sua filha a usar ferramentas, peça a ajuda dela para trocar um pneu ou para colocar um quadro na parede. Ensine-a a usar furadeira, a trocar lâmpadas ou a resistência do chuveiro quando ela tiver idade para isso. Mostre que pintar uma parede pode ser divertido e que mexer com jardinagem chega a ser terapêutico.

Ensine seu filho a cozinhar, a limpar os móveis e a varrer o chão. Se ele for o irmão mais velho, peça sua ajuda com os menores. Mostre que um homem também pode colocar a roupa para lavar. Ensine-o a passar roupa, a trocar o lençol da própria cama e a desencardir as próprias meias.

Ensine à ambos valores como respeito e dedicação. Mostre à ambos que a casa é como uma comunidade, na qual todos tem que cooperar. Ensine à ambos que para manter uma casa em ordem e os filhos saudáveis todos têm que arregaçar as mangas.

Mostre exemplos de mulheres que fizeram a diferença no mundo

Mostre aos seus filhos as histórias de grandes mulheres que fizeram diferença no nosso mundo. Conte à eles sobre a cientista Marie Curie, sobre a engenheira da NASA Margaret Heafield, sobre a astronauta Valentina Tereshkova, sobre a guerreira samurai Onna-Bugeisha, sobre a aviadora Amelia Earhart, sobre a ativista negra Rosa Parks, sobre a incrível neurocirurgiã Sofia Ionescu-Ogrezeanu. Leia para eles a história de Malala e/ou o diário de Anne Frank. Mostre que lugar de mulher também é na política: cite os exemplos da chanceler da Alemanha Angela Merkel e da americana Hillary Clinton. Por mais que você não goste, cite que no Brasil tivemos uma presidenta, que boa ou não, foi escolhida pelo povo para comandar o país. Fale sobre a primeira-dama Michelle Obama, que fez e faz muito pelos negros, pobres e mulheres nos Estados Unidos.

Mostre exemplos de homens que fazem impecavelmente trabalhos ditos “femininos”. Mostre ao seu filho que ele pode ser cabeleireiro, enfermeiro, recepcionista, arquiteto e assim vai.

Ensine seus filhos que eles podem ser o que quiserem ser, desde que eles sigam uma carreira que lhes traga dignidade e paixão. Ninguém merece acordar todo santo dia e passar 8 horas fazendo algo que odeia, porque é um trabalho “para homens” ou “para mulheres”.

Mostre aos seus filhos como a linguagem pode ser traiçoeira

Cansamos de ver nos jornais manchetes extremamente machistas, mas que passam despercebidas por meio da linguagem. Li uma vez uma reportagem em que Michelle Obama fazia um discurso para uma grande plateia em Washington, apresentando seu programa Let’s Move. Na notícia, o jornalista assim colocou a manchete: “O presidente dos EUA deixa a esposa Michele Obama brilhar em discurso”. D-e-i-x-a. Oi?

Você já se perguntou porque a maioria dos furacões mais destrutivos possuem nomes femininos, mesmo eles afirmando que furacões com nomes masculinos compreendem 50%? Eu não me lembro do furacão André, João, Roberto, Nicolas. Mas me recordo muito bem do furacão Katrina, Sandy e Irma.

Enfim, evite falar sempre das mulheres em sentido pejorativo ou diminuindo-as. “A mãe do Fulano”, “a esposa do ciclano”, e por aí vai.

Elogio ou forma de opressão?

Ensine seus filhos que elogiar uma pessoa é uma forma carinhosa de mostrar amor e consideração. Mas que existe uma linha tênue entre elogio e opressão/desrespeito/assédio. Eu não vejo nada demais quando um amigo meu me diz “Isa você está bonita hoje.” Mas me senti extremamente desrespeitada quando ouvi, ao passar pela rua, algum homem se dirigindo à mim como “e aí, gostosa?”.

Quantas e quantas vezes eu, ao ver que iria passar por um grupo de rapazes logo adiante, tampei o bumbum com um moletom? Quantas e quantas vezes eu atravessei a rua ao avistar um cara me olhando demais? Quantas vezes eu preferi uma blusa mais comprida que tampasse minha calça jeans? Quando eu era adolescente, ao voltar da escola, eu sabia (mesmo jovem) quais ruas eram mais seguras e por quais caminhos eu atrairia menos olhares. Aquilo não era elogio. Era opressão.

Ensine aos seus filhos que elogiar sem machucar é um presente. Que um elogio pode ser dado sem nenhum intuito sexual e que é muito legal de dar, desde que você deixe a outra pessoa feliz e não assustada.

Roupa não diz quem você é

Ensine seus filhos que não é porque uma garota está com um shorts curto que ela está “disponível”, ou “sedenta por sexo”. Ensine que respeitar as pessoas não é uma escolha, é uma obrigação. E isso diz respeito à respeitar as vestimentas das pessoas também.

Em algumas culturas a nudez é completamente normal. Na maioria dos países, porém, a nudez feminina é vista apenas como um apelo sexual. Até amamentar em público pode ser taxado de “sensual”. Não, não, não! Ensine suas crianças que o caráter de uma pessoa nada tem a ver com o que ela veste. Que algumas pessoas adoram mini-saias enquanto outras se sentem mais confortáveis com calças. E que ambas merecem o mesmo nível de respeito. Pronto!

Por fim, pare de rotular

Quer educar seus filhos para serem adultos conscientes e empáticos? Pare de rotular as pessoas – TODAS AS PESSOAS! Pare de passar adiante frases completamente insanas como “todo preto é ladrão”, “toda mulher loira é burra”, “todo cara mais sentimental é gay”, etc. É chocante parar para ouvir o que as pessoas dizem por aí. Dá vontade de cavar um buraco até o centro da Terra e não sair mais de lá. Dá vergonha da raça humana nessas horas.

Então, por favor, não passe isso adiante. Poupe seus filhos de pensamentos tão mesquinhos e horríveis. Dê um passo à frente de tudo que você aprendeu na vida que tenha a ver com rotular pessoas. Olhe para os outros com olhos mais neutros, seja mais razoável, julgue infinitamente menos. Cor da pele, raça social, gênero, opção sexual, etc. não passam de rótulos vazios. No fim, somos todos iguais, cheios de defeitos e qualidades.