Desenvolvimento infantil

Terrible twos ou “crise dos dois anos”: adolescência do bebê

Muitos pais conhecem essa cena: seu bebê – calmo, obediente e tranquilo – de repente se torna uma criança que chora, grita, se joga no chão e não respeita os milhares de “nãos” que você fala. O que aconteceu? O que mudou?

Na imagem encontra-se uma criança branca, vestindo roupa rosa e com cara de emburrada.
A adolescência infantil começa por volta dos 2 anos e vai até os 3 anos de vida. (Imagem: Unsplash)

Quando temos informações, tudo parece mais previsível, certo? Se nos informamos sobre os tipos de parto, sobre enxoval, sobre amamentação e sobre introdução alimentar, por exemplo, evitamos alguns sustos e perrengues desnecessários e nos sentimos mais confiantes e fortes com as nossas escolhas durante a infância dos nossos filhos.

O mesmo ocorre com essa faixa de idade tão rica, desafiadora e maravilhosa: os 2 anos. Antes de ficar com os cabelos em pé, se perguntando o que há de errado com o seu filho, vamos entender o que essa fase significa em termos de desenvolvimento infantil, assim como o que podemos esperar dela e como lidar da melhor maneira com a criança e com nós mesmos.

O cérebro da criança de 2 anos

Até os 2 anos, a criança precisa de um adulto para sanar quase todas as suas necessidades: ser amamentada, ser trocada, ser higienizada, ser alimentada, e por aí vai. Até 1 ano de idade, mais ou menos, ela precisava até mesmo ser transportada por nós. Além das limitações físicas, a criança até então apresentava limitações da linguagem, se comunicando por sons quase ininteligíveis conosco. Nós fazíamos tudo por ela, incluindo escolhas sobre o que vestir, sobre o que comer e sobre o que fazer no tempo livre.

A partir dos 2 anos de idade, a coisa começa a ficar mais interessante. A criança, até então uma simples espectadora dos pais e cuidadores, passa a desempenhar um papel mais ativo na sua própria vida. Com o desenvolvimento da linguagem oral, ela passa a sinalizar seus próprios desejos e, muitas vezes, suas próprias habilidades recém-descobertas.

O cérebro da criança, neste momento, está a mil! Neste período, o processo de mielinização cerebral está sendo intensificado, segundo estudos [1]. A mielina é uma substância produzida por certos tipos de gliócitos, que se enrolam em torno dos axônios, contribuindo para aumentar a velocidade do impulso nervoso. Está complicado né? Calma, eu vou explicar melhor. Quando nossos impulsos elétricos aumentam de velocidade, o processo de aprendizagem se torna mais intenso. Em outras palavras, a mielinização é uma importante aliada da maturação do nosso cérebro e ela está a todo vapor no cérebro infantil (você já percebeu que, conforme envelhecemos, vai ficando mais difícil aprendermos coisas novas? É porque esse processo de mielinização vai perdendo força conforme os anos vão passando). Além disso, crianças chegam a produzir o dobro de sinapses (impulsos elétricos entre os neurônios) que os adultos. Cada neurônio se comunica, em média com outros 10 mil [2]. É MUITA COISA!!!

É por isso que crianças de dois anos são tão interessadas em aprender e em desbravar objetos e lugares. Elas são curiosas e querem aprender tudo quanto são capazes. Você já deve ter ouvido algumas (ou muitas!) vezes as seguintes frases: “O que está acontecendo?” e/ou “O que é isso?”.

“Terrible twos” ou “Maravilhosos dois anos”?

Eu não gosto da expressão “terrible twos” ou “terríveis dois anos”, porque acho que soa como algo ruim, como uma fase terrível, na qual apenas problemas e maus comportamentos podem surgir.

Na verdade, é sim uma fase mais desafiadora para os pais, eu devo admitir. É estranho de repente ser confrontado e contrariado. É cansativo psicologicamente educar (afinal, se estiver fácil, tenha certeza que algo está errado). Muitas vezes, é frustrante repetir as mesmas coisas dez, quinze ou vinte vezes. E não são raros os momentos em que acabamos levando para o lado pessoal uns tapas e umas “birras” dos nossos filhos. Porém, se olharmos sempre o copo pela perspectiva de meio vazio, viveremos constantemente desapontados, não é mesmo?

Portanto, os dois anos são sim desafiadores, mas também são maravilhosos do ponto de vista do desenvolvimento infantil. Agora que já temos uma pequena noção do que está acontecendo no cérebro dos nossos pequenos, dá para vislumbrarmos um pouco de luz no fim do túnel e curtir um pouco dessa fase, que é cheia de aprendizado.

O que esperar da fase dos 2 anos?

Eu vou falar um pouco dos aspectos positivos e um pouco dos aspectos desafiadores desta fase. É importante, primeiramente, salientar que a fase denominada “adolescência do bebê” não começa exatamente no dia do segundo aniversário do seu filho. Algumas crianças começam a demonstrar alguns comportamentos típicos desta fase lá por volta de 1 ano e meio; outras começam por volta dos 2 anos e meio. Normalmente essa fase dura até os 3 anos ou 3 anos e meio, mais ou menos.

Aspectos desafiadores

Não se desespere ao ler esta lista. Seu filho não irá apresentar necessariamente todos os comportamentos listados, até porque tudo depende da personalidade de cada um, da forma como a criança é tratada, da forma como os pais lidam com esta fase, dentre outros.

  • Frases como “eu quero” e “é meu” passam a ser usadas com mais frequência;
  • Mudanças bruscas de comportamento – aquele bebê doce, calmo e risonho pode se transformar em uma criança bastante irritada;
  • A criança fica mais “exigente” – tudo tem que ser no tempo dela e do jeito dela;
  • A criança demonstra irritação quando contrariada – são aquelas cenas lindas que todo mundo jurava que não ia acontecer com os próprios filhos, como se jogar no chão do supermercado quando você disser que não vai comprar o pacote de bolacha recheada;
  • A criança apresenta comportamentos desafiadores com os pais e cuidadores – sabe aquela tomada que seu filho não pode colocar o dedo senão vai levar choque? É ali mesmo que ele vai querer por o dedo (então segurança no grau máximo, ok?). Ou então, sabe aquele bibelô que você tem na sala e que era da sua tatatatataravó e que você não deixa ninguém encostar? Pois é, você já entendeu o que eu estou querendo dizer!
  • A criança apresenta um maior número de “birras” – você pode explicar pela milésima vez que seu filho precisa colocar o casaco porque está frio ao invés da camiseta regata que ele escolheu, mas tenha certeza que começará a terceira guerra mundial (choros, gritos, chutes, etc.).
  • As “artes” começam para valer – não é muito incomum encontrar crianças desta idade que adoram rabiscar as paredes, escalar as cadeiras e mesas ou atirar objetos em pessoas ou pelas sacadas (novamente, cuidado com a segurança!).
  • A criança se mostra impaciente – é muito comum a criança desta idade não aceitar muito bem um “não” e ficar realmente irritada; também pode acontecer da criança não ter paciência para esperar a sua vez nos brinquedos e em filas.
  • As crianças se tornam mais dramáticas – você achou o filme A Vida é Bela dramático? É porque você não presenciou uma dramatização infantil nessa fase: você até pode se confundir achando que seu filho está com todos os ossos quebrados, porque o escândalo as vezes é imenso!
  • A criança pode ficar resistente à fazer as tarefas diárias – comer, se vestir, tomar banho, lavar o cabelo ou colocar o sapato podem se transformar em um caos.
  • A criança pode se tornar mais possessiva – é nessa idade que os pequenos podem começar a demonstrar sentimentos como ciúmes e posse, tanto de objetos quanto de pessoas.

Está agoniado? Calma, respira! Não são só desafios, lembra?

Aspectos positivos

  • Você pode manter uma conversa com seu filho – crianças desta idade normalmente já têm um vasto vocabulário e pode bater um papo engraçado com você!
  • As crianças mostram curiosidade – não tem nada mais fofo nesse mundo do que uma criança perguntando “o que é isso, mamãe?”. Aproveite esses momentos para conversar com seu filho e se conectar com ele.
  • As crianças estão mais independentes – é nessa fase que as crianças começam a mostrar interesse em se vestir sozinha, ou a calçar os próprios sapatos, comer com os próprios talheres, descascar uma banana, ajudar você com pequenas tarefas domésticas (como limpar a água que ela derrubou, por exemplo). Estimule essa independência do seu filho: vocês dois só tem a ganhar! Mas lembre-se: nesta idade, os pequenos ainda não apresentam maturidade para refletir sobre todas as suas escolhas e lidar com as consequências delas.
  • As crianças começam a mostrar a personalidade delas e seus gostos pessoais – é muito legal passar a perceber os gostos pessoais dos nossos filhos, assim como um pouco de sua personalidade.
  • Algumas “artes” vão fazer morrer de rir – eu dou muita risada quando encontro um hidratante meu no cesto de roupas para lavar, ou quando encontro meu cachorro com um laço na cabeça.
  • A criança começa a contar acontecimentos – é bem legal quando seu filho chega em casa da escola e conta pequenos acontecimentos do dia, como “eu brinquei com o fulano”.
  • A criança começa a demonstrar empatia – é lindo ver uma criança pequena mostrando empatia por outra que está chorando ou pelo animal de estimação que está doente. Mas é bom lembrar que isso deve ser estimulado por nós desde muito cedo!
  • A criança tem sede por aprender e ajudar – nessa idade eles querem aprender sobre todas as coisas com as quais eles têm contato, desde como se quebra um ovo até ajudar você a fazer um bolo, por exemplo.
  • A criança interage melhor com as outras pessoas – nesta fase as crianças passam a interagir mais com outros adultos e outras crianças, até por conta do vocabulário estar crescendo.

Viu só? Não é tão ruim assim!

Como lidar com essa fase?

A primeira coisa que nós, pais e cuidadores, devemos ter em mente é que a criança não tem comportamentos desafiadores por rebeldia ou porque tem algo contra nós. É muito fácil perdermos a cabeça e pensarmos que nossos filhos só querem nos ferir com as birras e desobediências, ou então, rotular a criança apenas a partir dos seus maus comportamentos. Algumas coisas que podemos fazer para passar por essa fase são:

1. Se mantenha positivo

Eu sei que parece pedir demais e que em alguns dias é realmente pedir demais, mas se manter positivo ajuda muito a tornar essa fase mais leve – tanto para você como para a criança. Por isso, tente se focar nos comportamentos bons, nos avanços do seu filho como ser humano e nas coisas boas que você está conseguindo descobrir sobre a personalidade dele. Mantenha a mente aberta, sabendo que essa é uma fase e que ela irá passar!

2. Muita paciência!

Assim como manter a positividade, a paciência vai ser a sua melhor aliada nessa fase e em muitas outras que vocês irão passar juntos. Travar uma batalha com uma criança é algo realmente inútil, pois, primeiro – o cérebro dela ainda está em desenvolvimento e, segundo – é você quem tem que ensiná-la sobre como controlar emoções (para ver mais sobre inteligência emocional na infância, clique aqui).

Ter em mente que essa fase é natural e até saudável para o desenvolvimento infantil pode ajudar bastante a manter a calma nos momentos mais turbulentos. Ter consciência de que muitos dos maus comportamentos do seu pequeno são causados exatamente porque ele não sabe como agir em determinadas situações é uma forma de você se manter empático mesmo quando o circo está pegando fogo.

Portanto, respire. Respire quantas vezes precisar. Se a respiração não estiver dando conta, permita se afastar por um minuto da situação para se controlar. Deixe que a criança se acalme também. Seus gritos podem ser um combustível potente para o incêndio ao seu redor. Quando a criança se acalmar (e você também), explique com delicadeza e olhando nos olhos dela o por que dela não poder sair com dois sapatos diferentes ou por que ela não pode comer a barra toda do chocolate. Isso surte muito, mas muito, mais efeito do que um cabo de guerra para saber qual lado irá falar (ou gritar) mais alto.

Se a criança voltar a ficar irritada (e se você estiver em um local seguro e que não atrapalhe mais ninguém), fale com calma e segurança que você estará ali para conversar quando ela se acalmar. Diga que a ama e se afaste. Se vocês estiverem em um ambiente público, não tome medidas que podem humilhar o seu filho (como gritar ou dar uma bronca): apenas pegue a criança no colo e vá com ela em um local mais reservado. Prossiga fazendo o que você faria se estivesse em casa: se acalme, espere ela se acalmar e redirecione o mal comportamento como explicado no começo deste parágrafo.

3. Nada de castigos

Os castigos podem até funcionar, mas para crianças mais velhas. Uma criança mais nova não consegue entender o que significa ficar 10 minutos sentada em um quarto “pensando” em seu mal comportamento. Você acredita que realmente um ser humano de 2 anos tem maturidade cerebral para refletir sobre o que fez? Acho que não! E nem espere por isso.

O que mais funciona, nesses casos, é o redirecionamento amoroso do mal comportamento. Outra coisa que funciona MUITO é explicar para a criança, com palavras fáceis e frases curtas, do porque você está falando “não” para ela. Dependendo da idade do seu filho (por volta dos três anos), você pode até negociar com ele (“você pode comer um pedaço de chocolate mais tarde, após o jantar, mas agora é hora da fruta”).

4. Bater, jamais!

Além de não ser justo (olha o seu tamanho e sua força e olhe para o seu filho), violência só gera mais violência. Como você vai ensinar seu filho que bater na mamãe, no papai e no gatinho é ruim se você lhe dá um sopapo cada vez que ele faz algo errado? Que autoridade você terá? Que exemplo você será?

Além disso, volte no tempo e se lembre de como você se sentia quando seus pais te batiam. Você parava para pensar que “eu estou apanhando com razão, porque fiz algo errado e não vou mais repetir” ou você sentia vergonha, medo e raiva na hora?

“Ah, eu apanhei e sobrevivi”. Sim, ainda bem que sobreviveu (outros não tem a mesma sorte: a cada 7 minutos uma criança morre vítima de violência doméstica, segundo a Unicef [3])! Mesmo estando vivo e saudável você há de concordar que aprendeu muito mais tendo uma conversa honesta com seus pais ou seguindo os seus exemplos do que apanhando deles.

5. Educar é cansativo, mas é o seu dever

Se você acha que passar pelo trabalho de parto e puerpério são as fases mais cansativas (e olha que são bastante cansativas e dolorosas!) é porque você não teve que começar a educar uma criança. Educar um filho é nosso dever e nossa obrigação como pais e seres humanos.

Ninguém é obrigado a conviver com crianças malcriadas e adultos sem limites. Não é tarefa da escola educar para a vida. Tampouco é tarefa da babá ou dos avós dar educação para os pequenos. É tarefa nossa e exclusivamente nossa. Educar requer paciência, determinação, foco, sabedoria, amor, coerência e constância por parte dos pais.

Educar uma criança de dois anos não é simples e nem fácil. Mas é tão necessário quanto nutri-la. Educar com amor é a tarefa mais nobre que nós podemos deixar para as próximas gerações. Não se educa um filho se estamos 24 horas grudados no nosso smartphone. Não se educa um filho quando fechamos os olhos para as birras, para os tapas ou para os chiliques. Não se educa um filho quando não passamos um mínimo de tempo de qualidade com ele. Não se educa um filho quando dizemos “não tenho tempo” ou “não tenho paciência” – você TEM QUE TER TEMPO E PACIÊNCIA, não dá para esperar, não dá para voltar atrás, você não tem opção!

6. Não confunda uma “birra” com acidentes

É importante não confundirmos um ataque de birra com pequenos acidentes que as crianças podem cometer.

Por exemplo, se o seu filho jogou propositalmente um copo no chão e espalhou água pela cozinha inteira é uma coisa, mas se o copo escorregou da mão dele sem querer, é outra. No primeiro caso é importante redirecionar o comportamento como descrito acima. Mas se o copo caiu por um acidente basta que nós o ensinemos, sem broncas, como limpar a água no chão (lembrando que depois de redirecionar um comportamento ruim nós também podemos ensinar gentilmente a criança a limpar a bagunça).

7. Aproveite para ensinar empatia

Até nos maus momentos (e estou para te dizer que principalmente nos maus momentos) nós podemos ensinar algo para os nossos filhos. Se ele bateu no amiguinho ou não quis dividir o brinquedo, por exemplo, nós podemos ensinar um pouco de empatia.

“Filho, você ter batido no Fulano me deixou triste. Bater não é legal. Como você acha que o Fulano se sentiu?”. Depois que a criança responder (e normalmente ELAS RESPONDEM “triste”), você pode continuar “Seria uma boa ideia pedir desculpas para ele, não acha?”. Frases como essas são uma boa saída e uma ótima maneira de ensinarmos sobre sentimentos e empatia para as crianças.

8. Explique à criança o que irá acontecer

Ninguém gosta de ser pego de surpresa, nem as crianças.

Uma forma simples e eficiente de driblar certos estresses desnecessários é explicando para a criança como será o dia, por exemplo. “Filha, nós vamos tomar café da manhã agora porque depois nós vamos ao supermercado comprar comida para irmos almoçar com a vovó”. A criança começa a ter uma ideia de que irá ao mercado e irá ver a vovó. Quando estiverem no carro ao caminho do mercado, você pode reforçar: “Filha, agora estamos indo ao supermercado. Como nós nos comportamos no supermercado? Não pode gritar, lembra?”. Isso ajuda demais aqui em casa.

Lembro de uma vez que fomos visitar o filho recém-nascido de uma amiga muito íntima minha. Eu falei para a Sofia (2 anos) antes de irmos: “filha, nós vamos agora visitar o bebezinho da Tia Ciclana. Ele é muito pequenininho, então não pode gritar perto dele porque ele assusta, tá?.” Ela achou o máximo, e ficava repetindo “não pode gritar né, mamãe?!”. “Não, e nem pegar na mãozinha dele, só no pezinho”. “Não pode gritar e só passar a mão no pezinho, né mamãe!” “Isso mesmo!”. E assim foi (orgulho meu!!!! hehe). Saber o que vai acontecer e se preparar para isso dá confiança para a criança e esse é um passo enorme para um bom comportamento.

9. Respeite seu filho

Essa regra vale para os dois anos e para todas as idades. Aliás, vale para todas as crianças, adultos, idosos, animais, plantas e meio ambiente: respeito serve para tudo e para todos. Muitos pais acreditam que crianças pequenas só têm deveres e que os adultos estão sempre certos.

Eu fico muito chateada quando vejo adultos tratando as crianças como se fossem seres sem inteligência, que não merecem ser respeitadas e que só têm a função de obedecer. Nós também erramos e nós também podemos pedir desculpas à eles. Eles tem diversos deveres sim, mas também têm os sentimentos deles. Eles são pessoas como nós, que precisam ser guiados por nós e respeitados por nós.

Por isso, nunca humilhe seu filho, nem na frente dos outros e nem longe das outras pessoas. Não brigue e dê sermão para ele quando estiverem em público; procure um local mais reservado. Você gostaria de ser criticado pelo seu chefe na frente de todos os seus colegas de escritório? Não, né.

10. Seja consistente com suas decisões

Se você não deixa o seu filho jogar bola dentro de casa hoje, não deixe ele fazer isso amanhã. Muitos pais costumam abrir muitas exceções com as regras que eles mesmos impõem. Isso confunde a criança, porque em um dia ela pode, no outro não, no outro pode. No fim, ela nunca sabe o que esperar.

Isso também vale para o casal. É importante o pai e a mãe (juntos ou vivendo separados) terem os mesmos valores e as mesmas regras para os filhos, caso contrário, um será sempre o vilão da história (e isso tem consequências desastrosas no futuro desta criança).

11. Mas tenha um equilíbrio

É importante ter um equilíbrio, mesmo quando se é consistente. Imagine a situação: seu filho de 2 anos tem que ir para a cama todas as noites as 21h. Mas, é seu aniversário e apareceu o seu pai para lhe dar um abraço. Não tem problema abrir uma exceção e deixar a criança ir para cama um pouco mais tarde para passar um tempo com o avô.

O que não pode acontecer são as exceções virarem regra!

12. Faça combinados com a criança

Se o seu filho estiver vendo um vídeo no celular (tem post sobre desenvolvimento infantil e tempo de telas aqui) e você quer que ele já vá para a cama, por exemplo, negocie com ele. “Filho, eu deixo você ver mais um vídeo, depois cama!”. Isso costuma dar muito certo e evita aquelas birras e choros inconsoláveis.

É claro que algumas situações não têm espaço para negociação: usar a cadeirinha do carro, tomar banho todos os dias, agressões físicas e coisas que coloquem a criança em risco, por exemplo.

13. Estabeleça uma rotina (e siga ela!)

Crianças se sentem mais seguras quando têm uma rotina estabelecida, pois elas sabem o que vai acontecer. Então, nesta fase dos dois anos seguir uma rotina condizente com as necessidades da criança e com o estilo de vida da família é muito importante para evitar algumas frustrações.

Uma ideia legal é fazer uma espécie de mural ou quadro da rotina. Imprima figuras ou desenhos das principais atividades do dia: comer, dormir, tomar banho, escovar os dentes, se vestir, passear, etc. Cole um velcro (ou ímã) na parte de trás destas figuras e a outra parte do velcro (ou do ímã) no quadro com os horários desenhados. Esse recurso visual ajuda a criança a se lembrar da ordem dos principais acontecimentos do dia e ela vai se divertir encaixando as tarefas nos devidos lugares.

Exemplo de um quadro de rotina. (Imagem: Little Lion)

14. Ofereça opções para a criança

Ao invés de começar uma verdadeira guerra na hora de vestir, por exemplo, ofereça algumas opções de roupas ou sapatos para a criança escolher. Assim ela se sentirá importante e responsável pelas suas escolhas e você não precisará sair com o seu filho vestindo camiseta xadrez e calça de bolinhas!

Várias coisas podem ser escolhidas pelos pequenos: quando precisar levá-lo ao supermercado, deixe-o escolher a pasta de dentes (dentre as opções que você determinar), a escova de dentes, as frutas que ele vai comer, e assim por diante. Te garanto: isso dá super certo!

15. Não fique “de mal” de outros pais

Se tem uma coisa que a maternidade/paternidade nos ensina é nunca julgar os filhos dos outros, pois a gente acaba pagando a língua. Brigar ou discutir com outros pais porque seu filho se desentendeu com o coleguinha no playground é a maior tolice que podemos cometer.

Isso porque não estaremos dando um bom exemplo para os nossos filhos (pois brigar nunca é a melhor opção) e porque as crianças fazem as pazes minutos depois de um desentendimento (podíamos aprender isso com elas).

Se um coleguinha morder/bater/arranhar/chutar ou tomar o brinquedo do seu filho, você pode discretamente e gentilmente explicar para ambas as crianças que bater não é legal ou que eles podem dividir os brinquedos. Se ainda assim o desentendimento continuar ou se o pai da outra criança não intervir com o filho dele, você pode conduzir o seu filho para outro espaço do parquinho, de forma educada e tranquila. Se o seu filho continuar chorando, explique a ele que bater não é legal, mas que a outra criança ainda não está pronta para se desculpar. E pronto, vida que segue.

Nada de xingar (“aquele moleque é muito malcriado”), tomar partido (“você é muito mais gentil do que ela”) ou bater boca com o outro pai ou criança.

Pode ser que no dia seguinte seja o seu filha batendo, lembre-se disso!

Curta esta fase: ela vai passar!

Sei que parece difícil e até um conselho meio sem pé nem cabeça no momento, mas se isto te conforta um pouco, também estamos passando por esta fase aqui em casa.

Temos dias maravilhosos, onde tudo vai bem, e outros dias cheios de desafios, onde me pergunto mil vezes “onde foi que eu errei?”. Mas se tem uma coisa que eu sou é otimista! Então eu sempre prefiro dar ênfase para os olhinhos brilhantes da descoberta, para a curiosidade aflorada, para a prontidão em ajudar e para os nossos papos deliciosos (mesmo que eu não entenda algumas palavras). Existe birras, existe tapas de vez em quando, já existiu uns chiliques em público.

Já senti olhares tanto de estranhos quanto de familiares sobre mim, e já recebi alguns conselhos. Alguns eu realmente segui; outros deixei passar; outros, ainda, eu nem me lembro mais. O que aprendi e estou aprendendo desta fase é dar menos (ou quase nenhuma) importância para o que os outros vão dizer e mais (muito mais!) no que eu acredito que seja o melhor para a pessoinha que eu mais amo neste mundo.

No fim, eu ainda acredito que cada criança é especialmente única, que esta fase ainda é incrivelmente maravilhosa e que com paciência, presença e empatia tudo dá certo. Afinal, o que pode dar errado quando se tem amor?

Fontes utilizadas

[1] PINHEIRO, M. Fundamentos da neuropsicologia: o desenvolvimento cerebral da criança. Vita et Sanitas, v. 1, n. 1, 2007.

[2] CARPEGIANI, F.; ECHEVERRIA, M. Por dentro do cérebro do seu filho. Revista Crescer, 2014.

[3] PORTAL DE NOTÍCIAS G1. A cada 7 minutos, uma criança morre vítima de violência, diz Unicef. 2017.

Recomendação de Leitura

Todos os livros você pode encontrar em livrarias físicas ou on-line como Amazon. Alguns destes livros estão disponíveis para Kindle.

NELSEN, Jane. Disciplina positiva para crianças de 0 a 3 anos: como criar filhos confiantes e capazes. São Paulo: Editora Manole, 2018.

SIEGEL, Daniel; BRYSON, Tina P. Disciplina sem drama: guia prático para ajudar na educação, desenvolvimento e comportamento dos seus filhos. São Paulo: Editora nVersos, 2016.

SIEGEL, Daniel; BRYSON, Tina P. O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar sua família a prosperar. São Paulo: Editora nVersos, 2015.