Gravidez,  Papo de mãe

Puerpério: de mãe para mãe (sentimentos e emoções desta fase)

Eu acho engraçado porque a maioria das pessoas falam muito sobre gestação, vias de parto (natural ou cesárea), amamentação, etc., mas pouco falam sobre o puerpério. Eu não me lembro de ter lido nada na minha gravidez sobre como seria os primeiros dias depois de ter minha filha, em relação à mim mesma e aos meus sentimentos e emoções. Eu sabia, vagamente, que existiria um tempo em que eu deveria me cuidar e me resguardar (a famosa quarentena), que teria um período no qual meu corpo poderia estar dolorido e que eu teria um bebê nos braços. Fim.

Os sentimentos e emoções nesta fase: uma bagunça só

O que eu não sabia é que o puerpério é o começo de tudo: de uma nova vida, de uma nova mulher, de um novo eu. O puerpério é uma fase que, para muitas mulheres, é PUNK e bastante desafiadora. É difícil imaginar essa fase quando ainda não somos mães, mas acho imprescindível sabermos pelo menos o que esperar dela.

Independente do tipo de parto, o puerpério é uma fase em que tudo parece meio desconectado, incerto, embolado e até meio esquisito. É como se tudo precisasse ser ajustado, redescoberto e reaprendido.

E é totalmente compreensível que seja assim: afinal, era só você (e seu marido, seu cachorro, seu gato, etc., mas essencialmente era só você), com a sua rotina, o seu trabalho e as suas prioridades. Você dormia e acordava a hora que queria, comia o que queria, saía e voltava a hora que queria. Você era livre. Mesmo na gestação, você continuava sendo dona de si e do seu tempo.

De repente, você vê sua vida de cabeça para baixo: você tem um corpo estranho – não mais aquele corpo bonitinho de grávida e nem o corpo de antes, mas um corpo diferente de tudo que você já teve um dia e, para piorar, um corpo que está dolorido, um seio que triplicou de tamanho e que também dói; você tem um bebê nos braços que precisa inteiramente só de você e você mal sabe o que fazer (não, não é só instinto). Você não pode dormir a hora que sente sono, não pode comer aquela comida gostosa qualquer, não pode dar um passeio por aí quando bem entender, não pode tomar um banho demorado quando quiser relaxar.

A sua rotina mudou. E, num piscar de olhos, você se vê ali, de pijama pela casa, coque nos cabelos e chinelos nos pés. Sua única função é alimentar aquele serzinho que chora sem parar e que você mais ama neste mundo. “Quem sou eu?”, “No que me transformei?”, “O que eu fui fazer da minha vida?”.

O que eu fui fazer da minha vida?

Eu me lembro nitidamente de ter esses pensamentos e da culpa que me invadia logo depois que eu os tinha. Será que era só eu que sentia isso? Será que eu estava sendo uma mãe ruim por querer, as vezes, minha vida de antes de volta?

Foi libertador quando eu descobri que eu não estava sozinha e que quase todas (para não generalizar) as mães pensam e sentem isso de vez em quando. Mas por que ninguém fala sobre isso? Por que ainda falamos tão pouco sobre as emoções do puerpério? Por que falamos pouquíssimo sobre baby blues e depressão pós-parto? Porque ainda temos a falsa ilusão de que tudo são flores e que depois de sair da maternidade adentramos num mundo cor-de-rosa onde tudo é só amor, alegria e gratidão?

Eu não tive baby blues. Também não tive depressão pós-parto. Mas ainda assim, eu me senti perdida muitas e muitas vezes. Também me senti sozinha, mesmo tendo um super apoio da minha família. O que eu não entendia naquele momento era que a solidão era interna, quase um luto pela antiga Isadora que agora já não existia mais. Percebo que muitas mulheres ficam mais quietas e mais introspectivas nestes primeiros dias pós-parto. Hoje eu entendo: no meio do nosso silêncio interno está brotando uma nova pessoa. Deixemos ir a antiga mulher para que a nova, muito mais forte, floresça.

Existe amor, existe alegria e existe muita gratidão. Mas também existe um processo de nos reconhecermos. “Ei, você aí, de coque no cabelo… prazer te conhecer!”

Nasce uma criança, nasce uma mãe, nasce uma nova mulher

Durante quarenta dias a gente precisa de cuidados especiais. Se você fez uma episiotomia durante o parto normal, precisa manter a cicatriz bem limpa para não infeccionar. O mesmo vale para a cicatriz da cesárea. Nos primeiros dias pós-parto é comum sentirmos cólica, principalmente ao amamentar: é o útero retornando ao seu tamanho original. A gente sangra bastante por um tempo depois de ter um bebê e ficamos MUITO inchadas. É preciso evitar relações sexuais neste período. Também é preciso desacelerar: evite pegar peso, abaixar, limpar, varrer, etc.

As instruções para manter a saúde física são essencialmente estas. Mas, e em relação ao psicológico?

Se eu puder te dar um conselho, ou vários, esses são os principais (respira, a lista é longa):

  • Lembre-se que você não está sozinha. Milhares de outras guerreiras estão passando pelo mesmo que você.
  • Não se culpe por não estar saltitante de alegria nos primeiros 15 dias. Esses dias são os mais puxados mesmo: você está sem dormir, está cansada, está se recuperando de um parto.
  • Se você achar que o seu desânimo está demais, peça ajuda! Não tenha vergonha de falar que está triste, que se sente perdida. Se for necessário, procure um profissional, faça isso por você!
  • Essa fase VAI PASSAR! Você voltará a dormir bem, você voltará a comer comida quentinha, seu corpo vai ficar mais bonito, você poderá tomar um banho demorado.
  • Ser mãe é maravilhoso, mas cansa sim. Tem dias que dá vontade de sumir sim. Tem dias que a gente chora sim. Todo mundo passa por isso, você não está sozinha!
  • A vida não se resume àquelas fotos perfeitamente editadas do Instagram. Aquelas fotos são um pedacinho micro do dia da pessoa, não o dia todo dela. E, te garanto, muitos momentos daquelas fotos lindas duram alguns segundos. Não se iluda!
  • Não compare o seu bebê com o da amiga, da vizinha, etc. Não se compare com a amiga, com a vizinha ou com aquela famosa que você viu na revista. Cada bebê e cada mãe tem um ritmo. Cada um é único, e a graça do mundo está exatamente em sermos diferentes um do outro.
  • Aceite ajuda. ACEITE AJUDA!!!! Da sua mãe, pai, vó, sogra, amiga, vizinha, cunhada, sobrinha, ou seja lá de quem for. Deixe o orgulho de lado e permita ter uma rede de apoio que te ajude com o bebê e com a casa. Isso facilita muito e faz toda a diferença nesta fase.
  • Se você conseguir essa rede de apoio que te falei ali em cima, tire um momento do dia (nem que seja 5 minutos) para você. Ouça uma música, lave o cabelo, respire um ar fresco, veja a luz do dia, tome um banho, acaricie o gato, estique o corpo. Qualquer coisa que te traga bem-estar é válido.
  • Durma sempre que puder. Seu bebê dormiu? Durma junto! Priorize o seu descanso acima de tudo. A casa pode esperar. As visitas podem esperar.
  • Só receba visitas se VOCÊ quiser! Essa parte é uma das mais polêmicas, mas eu sou do time de que visita sem ser íntima é só depois de uns dois meses. Você já está passando por muitas mudanças, e além disso, seu bebê ainda está vulnerável quanto à imunidade. Tenha isso muito claro com o seu parceiro e família antes do bebê nascer: quando receber visitas e de quem.
  • Converse com uma amiga. Fale sobre seus sentimentos, medos, aflições e angústias. Arrume uma pessoa em quem você confie e fale. Essa é uma das melhores terapias que existe e ajuda demais nesta fase do puerpério. Se seus amigos moram longe, vale áudios ou textos no Whatsapp: o importante é botar para fora!
  • Se orgulhe de quem você é! Você pode até estar descabelada hoje, mas pare para pensar em como você é forte: você gerou e pariu outro ser humano! Minha amiga, isso não é pouca coisa não!!!!
  • Dê tempo ao tempo: não queira apressar as coisas. Não adianta querer um corpo sequinho 15 dias depois do parto. Nem que o seu bebê durma a noite toda com 3 semanas de vida. Não seja imediatista. Lembre-se que as maiores (e melhores) mudanças demandam tempo.
  • Pode parecer surreal dizer isso, mas curta muito o seu bebê nesta fase. O primeiro mês de uma criança é o mais desafiador, mas é o começo de tudo. Um dia, lá na frente, você sentirá saudades (pois é, que ironia né!) desta fase!
  • Não ouça todos os pitacos e conselhos que as pessoas insistirem em te dar. Se respalde sempre em orientações seguras, como as do seu médico e de livros e blogs idôneos. A internet está cheia de informações que podem colocar tanto a vida da puérpera quanto a do bebê em risco. E muitas crendices populares já caíram por terra desde que você nasceu.
  • Por fim, se permita passar por essa fase com todos os seus sentimentos e angústias. Se permita chorar quando sentir vontade, se permita reclamar quando quiser. Somos guerreiras sim, mas também somos humanas!