Desenvolvimento infantil

Meu filho não quer por roupa ou só quer usar a mesma. E agora?

Tem algo mais fofo do que roupa e sapato de criança? Não!

Já cansei de me ver levando roupas para a Sofia quando na verdade o que eu estava buscando eram roupas para mim. Aquelas cores, tamanhos e formatos são irresistíveis!

Mas de que adianta a criança estar cercada de roupinhas fofas e sapatos diferentes se ela simplesmente se recusa a colocar qualquer peça de roupa? Ou, como reagir quando ela quer usar a mesma roupa para todas as ocasiões?

Entenda o comportamento infantil: é uma fase!

Você já deve estar acostumado: teve a fase do choro, a fase da chupeta, a fase do “não”, a fase do tapa, e por aí vai. Bem vindo a fase da troca de roupas/sapatos!

Não, não é fácil lidar com essa fase. Sim, incomoda muito a criança não querer se vestir; a gente se atrasa, se estressa e quase desiste. Mas o pai e a mãe que nunca tiveram que sair com uma criança de blusa sem manga em uma temperatura de 10ºC que atire a primeira pedra. Mas isso é uma fase e como todas as outras, vai passar (assim eu também espero, caro leitor)!

Vários podem ser os comportamentos dessa fase:

  • a criança se recusa a colocar uma determinada peça (calça, blusa, casaco, calcinha/cueca);
  • a criança não usa determinada cor de roupa;
  • a criança reclama de peças com algum detalhe (gola, zíper, botão, etiqueta, manga, bolso, etc);
  • a criança só quer usar uma determinada roupa para todas as ocasiões (para sair, ficar em casa, ir na escola, dormir);
  • a criança se recusa a usar qualquer tipo de roupa ou sapato (ela quer ficar pelada)

Imagine o caos. Mas por que isso acontece, afinal?

Os 3 anos da criança

Bom, primeiro devemos entender o que acontece durante os 3 a 4 anos infantis (é mais ou menos nessa idade que temos esse desafio, vamos dizer assim).

Aos 3 anos a criança já alcançou ganhos gigantescos em relação à linguagem. Eles já conseguem se expressar por meio de frases, já contam histórias, já participam das conversas no jantar, já nos contam coisas que eles aprenderam na escola ou que viram em um filme.

Por estarem tão hábeis em “falar” é que eles já conseguem nos contrariar. Não é a toa que os 3 anos são mais desafiadores que os 2: as crianças têm o cérebro mais desenvolvido, estão mais inteligentes, são fisicamente maiores e estão mais determinadas (1).

Ao mesmo tempo, é uma fase extremamente rica: a criança está formando um pouco da sua identidade e entendendo que vive em uma sociedade multicultural. É aqui que nós devemos começar a introduzir aos nossos pequenos uma educação livre de preconceitos, ensinando nossos filhos a respeitarem o próximo, seja em relação à sua raça, opção sexual, religião e classe social.

Em relação ao desenvolvimento infantil, esta é uma fase de muitas transições: nossos filhos começam a dispensar o tão sagrado (e útil) cochilo da tarde, começa o desfralde noturno, eles já não querem mais mamadeiras e coisas que remetam à ideia de “bebê” e já demonstram algumas preferências e habilidades (2).

Como vestir a criança com mais tranquilidade nesta fase?

Agora que nós já entendemos o contexto dessa fase, nós podemos encarar as batalhas na hora de vestir nossos filhos com mais assertividade, paciência e amor.

Vou mostrar algumas coisas que são comprovadas pela ciência e pelos pesquisadores da disciplina positiva e que dão certo para qualquer fase dos nossos pequenos, incluindo a hora de vestir suas roupas.

Se conecte com a sua criança na hora da birra

A conexão com a criança na hora da birra tem o poder de passar uma criança da reatividade à receptividade. Isso porque é quando nossos filhos estão mais incomodados que mais precisam de nós para lhes ensinarmos a se auto-regular e lidar com sentimentos como frustração, raiva e descontrole.

Se travamos uma batalha com eles nesse momento ambos perdem. Por outro lado, quando os pequenos sentem o nosso amor, mesmo em momentos em que sabem que nós não estamos de acordo com suas atitudes, eles conseguem retomar o controle e pensar com a parte cerebral mais receptiva (o famoso CPF – Córtex Pré-Frontal) (3).

Mas, lembre-se: o desenvolvimento do córtex pré-frontal, por ser um centro de controle sofisticado e extremamente complexo, não está completo até os 20 ou 25 anos! Ou seja, não espere que uma ou duas vezes de conexão com seu filho será o suficiente para que ele não faça mais birras, ok?

Torne o ato de se vestir uma brincadeira

Algo que por aqui sempre funciona são histórias com personagens. Por exemplo, se Sofia não quer comer legumes eu sempre invento uma história com a cenoura ou com o brócolis. O mesmo pode ser aplicado às roupas: “Oi Sofia, eu sou a senhora Casaco, tudo bem? Estou aqui para te deixar bem quentinha nesse frio. Você pode me vestir para passearmos juntas?”.

Se a roupa possui uma estampa com algum personagem, melhor ainda. Dê voz àquele herói ou àquela princesa que eles tanto gostam. Vai por mim, você vai economizar um bocado de tempo.

Ofereça opções

Lembre-se que nesta fase as crianças sabem nos desafiar. O que mais quebra a nossa “carranca”? Quando nos são oferecidas opções!

Selecione duas ou três peças de roupas para a criança escolher. Ela se sentirá respeitada, independente e ficará feliz por fazer parte da escolha de suas vestimentas.

Combine com antecedência

Antes do banho, você já pode explicar: “Filho, nós vamos tomar banho e colocar um pijama de frio, pois essa noite está muito gelada”. O mesmo vale para colocar o uniforme ou uma roupa mais especial: “Hoje iremos em uma festa de aniversário, então você poderá vestir aquele lindo vestido que a mamãe comprou para você”.

Isso já vai preparando a criança e evita que ela seja pega de surpresa.

Deixe um dia para ela se vestir do jeito que ela quiser

Na minha opinião, não tem nada demais separar um dia da semana para a criança se vestir do jeito que ela quiser: com aquele vestido esvoaçante da princesa Elsa ou com aquele macacão que está curto mas que seu filho adora.

Até nós, adultos, temos nossas preferências por certas roupas e é tão bom vestirmos uma roupa que nos faz feliz vezes ou outras né (no meu caso são meus pijamas durante o dia! hehe).

Mas, atenção, deixe claro que “hoje é permitido, mas amanhã a mamãe vai te ajudar a escolher novamente”.

Seja consistente e estabeleça limites

É claro que mesmo com todas estas dicas, tem dias que parece que nada funciona. Essa é a hora para mostrar a nossa consistência. Não é permitido sair de casa pelado, então sim, a criança terá que se vestir para sair, mesmo que isso faça com que ela arme o maior barraco.

Também não é higiênico vestir a mesma roupa sem que ela seja lavada. Então, sim, a criança terá que vestir outra roupa enquanto essa seca.

Nesta hora a gente precisa ser firme e mostrar que nós estamos no controle da situação. Isso, claro, de forma carinhosa.

No mais, paciência. Respira, que isso passa!

Fontes utilizadas

(1) WALFISH, F. The self-aware parent: resolving conflict and building a better bond with your child. St. Martin’s Publishing Group, 2010.

(2) NELSEN, J., et al. Disciplina positiva para crianças de 0 a 3 anos: como criar filhos confiantes e capazes. São Paulo: Manole, 2018.

(3) SIEGEL, D. J.; BRYSON, T. P. Disciplina sem drama. São Paulo: nVersos, 2016.


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** Todas as imagens utilizadas neste post foram retiradas da Plataforma Canva e possuem os seus direitos respeitados.